A nota melancolica da conversa desapparecia por completo do nosso espirito para só avultar aquella estranha palavra:—Deão!—Que seria aquillo?... Talvez uma coisa escarlate franjada a oiro, como os guiões, que levavam uns pobres homens derreados, na procissão do Corpo de Deus!

E o velho Barreiros, com tal probabilidade de pae, avultava aos nossos olhos prodigiosamente, tornava-se quasi divino, n'um hieratico esplendor de festa religiosa.

Por fim, o pobre velho já não se atrevia a sahir ás propriedades de fóra—honestamente pediu que lhe baixassem a soldada, que elle ficava só para tratar da horta. E ás tardes, n'aquelles poentes tristissimos das regiões montanhosas, nós passeavamos sob a parreira da horta: elle de sacho na mão, parando de quando em quando a apanhar uma folha velha das enormes couves, que só elle fazia crescer espantosamente. Nunca mais vi couves assim! Talvez por ser eu muito pequena, tudo me parecesse grande; talvez porque o tio Barreiros tivesse receita especial para as fazer crescer!...—«Que isto, meninos, as criadas não devem pôr mão na horta. Uma desgraça, decepam tudo, uma estragação!»

Claro; nós eramos sempre pelo velho contra ellas.

—«Lá em casa dos fidalgos, havia couves ainda mais altas do que estas!...»—

—«Mais altas, tio Barreiros?!...»

Que grande coisa ser fidalgo!—pensava. Até a horta se resentia de tamanha altura heraldica!

Ah tio Barreiros, tio Barreiros, que loucuras risonhas nos mettia na cabeça a vossa bastardia fidalga! Que saudades, meu amigo!...

Uma vez—ha quanto tempo isso vae!—mal começava a aprender a ler, por premio assignaram-me um jornal, que devia vir directamente para mim.

Esperava n'uma febre a chegada do carteiro; e nada do jornal apparecer, para o meu nome, como eu sonhava noite e dia!... Desabafava com o tio Antonio, aquillo parecia-nos historia...—«Mas o papá pagou isso, menina?»