—«Pagou, tio Antonio, para vir para o meu nome.»
—«Pois olhe que foi no que elle andou mal. Nunca fiar!...»
E lá esperavamos, consternados, mais vinte e quatro horas. Mas um dia soube-se:—o jornal tinha vindo logo, mas, como eu tivesse n'uma terra proxima uma tia com o mesmo nome, os empregados do correio vá de lh'o remetterem. Eu, muito queixosa, fui ter com o Barreiros ao quintal. Elle indignou-se:
—«Vou já lá de caminho. Não, que uma coisa assim!... Nem que a minha ama nova não soubesse já lêr, não fosse capaz de ter um jornal!» Era uma injuria para nós ambos. E eu ficava consolada, vendo-o atravessar o pateo, seguido das gallinhas, gallos, perús, marrecos, com o ganso pae á frente—o Caetano—como lhe chamavamos.
E elle lá ia com toda a pressa que as suas velhas pernas lhe permittiam—um casaco que lhe tinham dado, arrastando na frente e muito curto atraz, tão dobrado andava elle, o pobresito, a pender para a terra!..
E o caso é que fez um discurso no correio. Mas por fim discutimos:—«Menina, o melhor é mudar de nome. Olhe que hade haver sempre enganos!»
E esta coisa de haver enganos—tocou-me. Toda a vida a não receber os meus jornaes...
—«Pois está dito, tio Antonio! É o melhor.» E assim foi.
Mas o velho começou a enfraquecer. De dia para dia o corpo se lhe dobrava mais para a cova. Já pouco comia, sustentava-se de vinho e marmellada, nada mais.
E n'um inverno muito rude, em que a neve cahiu mais a miudo e de manhã a agua dos tanques apparecia gelada—o tio Antonio Barreiros apanhou uma tossita; levantava-se tarde, já não ia com o sacho para a horta...