Sentiamos que o seu espirito, risonhamente infantil, já andava longe, n'um meio sonho, quasi desligado da terra...
Fallava na mulher, fallava na filha, com uma grande serenidade e um redobramento d'affecto—como quem pensava em as encontrar breve. Depois olhava-nos com uma tal saudade...
E n'uma fria manhã d'inverno, voltado para a parede, embrulhado na manta de riscas, elle appareceu serenamente adormecido para sempre. A sua bocca ironica eternamente risonha; fechados os olhos azues d'uma graça aristocratica... O seu perfil accentuado, desenhava-se muito nitido na brancura da parede. As glycineas, despidas de folhas, mettiam os braços hirtos pela abertura da janella, n'uma ultima despedida ao velho amigo que as tinha plantado... E elle dormindo na manhã brumosa, sem responder ao nosso chamamento!...
E que falta elle fazia, á noite, na ceia dos criados, contando historias, oh! lindas historias de feiticeiras e lobishomens—de que o velho se ria, um poucochinho sceptico, vamos lá!...—Guerras que elle vira, dramas de familia a que tinha assistido, trovoadas no meio da serra a quando pastor... Ah! tudo isso nos fazia muita falta, muita falta!... E nunca mais nós esqueceremos o tio Barreiros, dormindo socegadamente junto dos patrões, que primeiro nos tinham deixado.