Estou a ve-lo, o senhor doutor, com a sua casaca prehistorica, lustrosa, d'um feitio unico; o lenço d'Alcobaça, azul escuro, com pintinhas brancas, a sahir dos bolsos; comprimentando receoso, estendendo apenas dois dedos gordos e vermelhos; soprando contente a cada palavra...

Levava a umbella em todas as procissões e na minha poderosa imaginativa infantil aquillo engrandecia-o a tal ponto que o revia no céo acompanhando as almas purificadas ante o throno d'oiro do Padre Eterno.

Se cahiu de tão alto no meu conceito, não foi d'elle a culpa, que impassivel continuou elle a sua vida quasi hieratica entre o incenso dos thuribulos e o cheiro fresco do rosmaninho—eu é que mudei, infelizmente!

Porque não detemos nós a vida; porque não conservâmos o nosso espirito na meia hallucinação dôce da infancia? Se vale a pena isto!... Andar a primeira parte da vida a construir altares, a enramalheta-los, a venera-los com todo o nosso enthusiasmo; gastar outro tanto tempo a destrui-los; e o resto da vida passar a chora-los! Não, não acho que vá bem assim o mundo! Ou as crianças teem que nascer com a sabedoria dos velhos ou os velhos ficarem com a ingenuidade das crianças. Quanta tristeza se pouparia a certos espiritos por demais vibrateis!... Assim, eu escusava de soffrer vendo a pobre cabeça do velho doutor Mendes, que diziam intelligente, ser agora uma coisa esteril e ôca.

O seu risito infantil, em hi, hi, hi, como dava uma prova dos frageis juizos humanos! E tinha sido terrivel em vinganças do tempo dos Cabraes, elle que hoje fazia rir as crianças!

A rodear o idoso doutor Mendes fazia-se uma atmosphera de coisas envelhecidas e desbotadas. A sala de recepção—forrada a pannos d'Arrhas, com ingenuas scenas da Biblia, onde as côres já murchas se confundiam e empallideciam suavemente a dar um tom uniforme á filha dos Pharaós salvando um esperto Moysés e ao seu terrivel pae affogando-se nas justiceiras aguas do Mar Vermelho—abria-se lá pelas festas ás raras visitas. Impunha respeito com os seus tectos altos, o delgado friso doirado a dividir os pannos, as suas doze cadeiras formadas aos lados do sophá incommodo como um potro inquisitorial, o indispensavel tremó e espelho a encima-lo.

Logo ao entrar no pateo, á noite sempre illuminado esperando problematicas visitas, uma gelida impressão de silencio nos envolvia. Subia-se meio receoso a escadaria de pedra, a abrir-se nobremente em dois lanços, como um velho amigo que nos recebe de braços abertos. Essas bellissimas escadas das casas antigas, que dão bem a nota carinhosa do nosso gosto pela hospitalidade, eram mais uma frisante ironia n'aquelle interior fechado, esquecido, só de longe em longe visitado por indifferentes.

Entrava-se a medo na sombria casa e esperava-se, em silencio, que os donos apparecessem. Passado um tempo, que nos parecia infindavel, vinham, as quatro manas—miudinhas, desbotadas ellas tambem, muito parecidas umas com as outras, fallando baixo, repetindo todas o que dizia a mais nova, sentenciosamente, a módos de oraculo. Muito devotas, um grande respeito pelo mano doutor, ellas lá iam todos os domingos, em carreirinho de formigas, á missa pacata da freguezia. Muito velhitas, com antigos enfeites na cabeça, vestidos de seda passados de modas ha tempos immemoriaes, lencinhos de renda no pescoço, restos d'antiga garridice, cheirando a alfazema e a camphora.

Como isto vae longe, perdido no montão de saudades que me enchem a memoria; e como eu sinto ainda toda a impressão de poeirento, de velhez, que me tomava toda quando as ia visitar ceremoniosamente!

Porque o tempo já ia longe em que a minha inconsciente criancice ousava penetrar sem receio n'aquelle tumulo. O tempo das procissões e do leite frio passára com a minha primeira infancia e com as passeatas á igreja para ver as mudanças de toilettes que Nossa Senhora soffria de cada vez que a passeavam procissional e dolorida.