E ainda hoje ellas córam e baixam os olhos admirando a immoralidade que vae por esse mundo.—«Tudo perdido, tudo perdido, manas...»—dizia a mais nova, fechando os olhos a cada palavra.—«É verdade, é verdade, é verdade...»—respondiam as tres a um tempo.—«Ainda bem que o mano não quiz casar!... Nem nós tambem, que fomos bastante pretendidas!...»—«É verdade, é verdade, é verdade!»—fazia o côro.—«Que módas, santo Deus! Os homens cruzam a perna deante das senhoras e apertam as mãos!! Que gente, que immoralidade!...»—E as outras abanavam a cabeça affirmativamente, emquanto o doutor Mendes, á janella, lia a Nação, escondendo das boas irmãs um sorriso velhaco.
E foi elle, tão córado e gorducho, o primeiro a morrer.
A sua morte déra brado. Murmurava-se: «Afinal não fizera testamento? Podera! Até na morte fazia partida. Fôra sempre assim.»—E lá iam seguindo o enterro, bocejantes, sem nenhuma pena, maçados. Enterro de indifferentes que nenhum respeito contêm no seu aborrecimento.
As pobres irmãs, mirraditas, gemiam frouxos lamentos. Tão velhinhas, tão longe d'este mundo—nem gritos já tinham para se lamentar. Era um correr de lagrimas, sem soluços nem febre, um resignado soffrer de pallidos phantasmas.
Por suprema ironia das coisas humanas, até o enterro foi causa de riso. Do antigo mandão d'aldeia, que inspirara medo e profundos odios, apenas restava esse corpo inerte deitado n'uma eça branca, com a fita do caixão risonhamente branca. Se elle fosse vivo como a levaria imperturbavel!...
Mas os sinos lá ao longe tangiam maguas, que se iam alastrando como nodoa d'azeite na pardacenta tarde de um fevereiro triste.
Como é enervante pensar na vida assim, sem interesse pelos outros, sem nenhum grande affecto que nos chore bem alto, a fazer calar todos os risos!...
N'essa paysagem, paralysada pelo inverno, só eu parecia viver—campos de vinha estorcendo os braços esqueleticos, pinhaes muito graves no seu eterno verde, o riacho a correr ao fundo do valle, e como gigantesca parede as serras violeta, escarpadas e selvagens... Ao fundo, vaporisando-se no poente, as torres alvas das igrejas lançavam pelo espaço o seu lamentoso dobre: dão!... dão!... dão!...
Uma grande amargura me affogava a alma, vinda d'essa paysagem desolada, d'esse cahir da tarde sombria, da lembrança de morte que fluctuava no ar—de qualquer coisa emfim que me segredava desalentos e angustias...
A chuva começou de cahir miudinha, sem ruido, para o fim da tarde... Que desagradavel noite essa primeira que o velho doutor Mendes passou solitario no seu tumulo, guardado pelas sentinellas esguias dos cyprestes!