E, subito, de volta d'uma estação d'aguas, eis que elle muda completamente. Luxo, passeios, viagens, projectos de compras, tantos e taes, descriptos com tal apparencia de logica, com tão ardente enthusiasmo de phrase, que chegava—não a convencer-nos da realidade de taes sonhos, mas a fazer nos viver na hallucinante miragem em que o seu espirito se perdia.

Depois que, no regresso da villegiatura, vira representar o Hamlet, apaixonára-se pela loira e ideal Ophelia, por essa pallida figura tão intensamente dramatica na sua passividade de amorosa, tão angelicamente resignada e feminil, que é já uma forma palpavel do ideal... Verdadeiras e dignas de piedade as suas lagrimas—symbolisando todas as que no mundo teem vertido olhos de tristes despresados.

E o sympathico doutor, um bom, um sincero, um sentimental, apaixonára-se por essa irmã da sua alma, que vae desfolhando as niveas flores do seu dôce amôr, cedo queimado pela ingratidão.

A crueza de Hamlet resgatou-a elle, levantando no seu coração de romantico um templo auriluzente onde a incensava com a myrrha do seu talento, que a loucura, parece, exacerbára, requintára, fazendo-o subir ás etherias regiões onde as mais solidas cabeças sentem vertigens!...

Todas as mulheres passaram a ser para elle suaves Ophelias; n'ellas via a amada, o seu puro ideal; adorava-as como se essa adoração fosse ainda uma homenagem rendida á dama dos seus pensamentos—alma de cavalleiro trovadoresco, vencendo emfim a gelida couraça da materialidade burgueza.

A medicina, o amôr e o delirio das grandezas eram as suas ideias fixas. E então—vendo uma loira e anemica rapariga de silencioso porte, obrigava-a a beber aguas de Vidago e gritava com grandes braçadas enthusiastas: «beba, beba, que eu hei-de fazer d'um pastel de nata um pastel de carne!...» Logo respondia irado a um primo, que, por troça, aconselhava uns tamancos e passeios pelas serras como remedio mais efficaz: «fallou o livro Caixa!... Uma estrella de tamancos!... É uma blasphemia sideral!...»

Tinha agudezas de ditos que nos punham em duvidas. Doido?!... Se isso podia ser, fallando elle tão prodigiosamente bem, encontrando com tanta facilidade a memoria da sua juventude!

A sua palavra quente, d'uma fluencia correntia e d'um enternecimento tão sincero que pelas lagrimas tinha arrancado muito perdão aos jurados commovidos—tomára um tom d'inspirado, quasi prophetico!

Doido, doido!?... E que seriamos nós, que o não comprehendiamos? A imperceptivel linha que separa o juizo da loucura tremia diante da nossa duvida.

Os seus pobres nervos exacerbados estalavam em ditos faiscantes, desfaziam-se em lagrimas, espalhavam o seu immenso talento em estilhaços—e apezar d'isso tão brilhante!—como aerolithos, atravessando a deprimente vida provinciana. Fazia-nos uma atmosphera de sonho, de desvairamento e d'exotismo; que a terriola já parecia—una casa de locos sin locura!...