Elle, que só por muito favor pegava d'antes no violão, recordava agora todas as antigas musicas com uma revivescencia da sua vida bohemia d'estudante. Cantava, com a mesma alegria da mocidade, a triumphal recita do quinto anno.
Fazia pena ver o pobre violão dobrar-se todo para gemer trechos de musica já passados de moda ha mais de vinte annos. E mais pena ainda ve-lo tão alegre, d'essa alegria que tanta vontade de chorar nos causa!
Ia ao cemiterio conversar com a mãe—affirmava. Narrava, em voz estrangulada, extraordinarias coisas que, parece, ella lhe dizia baixinho... Essa familiaridade com o desconhecido fazia errar em torno de nós as sombras dos bons mortos... uma nevoa revoluteante de estranhos sonhos...
Que as cabeças não andavam lá muito seguras, não!...
Quando o levaram para o hospital, despediu-se radiante—certo de que ia ser o director, projectando grandes reformas e esperando encontrar lá a sua pallida Ophelia, absorvida n'um delicioso sonho feito de sorrisos de noivos e de camelias idas na corrente de luar...
Com os seus cabellos fluctuantes, as suas mãos translucidas desfolhando flores, arrastando as alvinitentes vestes—ella o aguardava...
Assim se extinguiu aquelle brilhantissimo espirito! Assim ficou silenciosa aquella eloquentissima voz, que fazia repuxar lagrimas aos olhos dos mais ferozes julgadores! Assim morreu aquelle coração de romanticos arrebatamentos, naufragando na banalidade ultima da vida material!