A SENHORA ANGELICA

[A SENHORA ANGELICA]

senhora Angelica forneira era a cara mais phenomenalmente feia que eu tenho visto—e verei. Espero esse favor de Deus Nosso Senhor, que nos fez á sua imagem e semelhança...

Eu nem sei explicar aquella mascara de gente! Não se pode mesmo comprehender como a face humana perde assim toda a forma macia de carne e se torna enrugada e musgosa como um velho carvalho—que vae morrendo aos pedaços e que todas as primaveras enverdece menos, lá para o cimo dos ramos.

Pois, apesar da horrivel fealdade da senhora Angelica, ella resumiu para mim, durante a minha infancia, um mundo de sonhos e phantasticas imaginações.

Mal a via assomar ao cimo do largo; a saia de riscado curta a mostrar um começo de pernas gretadas e uns pés enormes, deformados e sujos; saracoteando-se desgraciosa com o taboleiro de brôa cozida á cabeça; corria logo á cozinha para lhe ouvir recontar pela millesima vez o estranho caso.