Nada tinham dos miseraveis ciganos que atravessam os campos, melancholicos, seguindo-nos n'uma guincharia lamurienta, acompanhada pelos urros dos pobres ursos espancados e famintos e pelos intoleraveis macacos com os seus gritos de convulsionar os nervos... Perseguidos pelas auctoridades e pelo odio do povo, que encontra sempre para contar arrepiantes historias dos vagabundos—crianças dadas a comer aos animaes, colheitas devastadas, roubos...—esgueiram-se logo, passam de largo pelos povoados, com a falsa humildade dos cães batidos.
N'esse dia tratava-se d'um casamento e o arraial estava em grande animação. O conde era o padrinho; mandára para lá vinho a rodos e leváva convidados. Promettia ser luzida, fallada por muitos annos, a festa.
Os beirões, de cabeça dura, enraizados na terra como pinheiros selvagens, olhavam, com um mixto d'espanto e de desprezo, para esses eternos vadios, instaveis como a areia do deserto. Alguns, mais entendidos, contavam o que aquillo era:—Nada de padre, nem de pregões, nem de igreja! Quebrava-se uma bilha e ficariam juntos tantos annos, quantos os cacos em que ella se fizera.—Horrores!... E as velhas benziam-se, assustadas.—Credo, Santo nome de Jesus! E viviam assim! Criaturas que nem eram de Deus!... E o sr. conde mettido com aquella gente! Oxalá a mãe não andasse aos tombos no outro mundo pela estragação de mimos em que o criára!...»
A senhora Angelica forneira, n'esse tempo era ainda uma rapariga, casada de pouco com o seu Joaquim, que sempre fôra bom homem, isso é verdade! Amigo da pinguita, por isso não juntaram vintem; morrendo porque ella lhe levasse pontas de cigarro para se entreter lá pelo forno; mas bom homem, no fim de contas, bom homem. Se lhe batia ás vezes, era por amôr—claro!...
N'esse dia, como toda a gente da terra, embasbacava-se a sr.ª Angelica deante do acampamento em festa. Como se adeantasse mais, curiosa de vêr a noiva, depois de ter admirado a gentil figura do noivo, chegou-se a ella uma rapariga, a sahir da infancia, d'uma brancura de pelle, d'uma côr de cabello, d'uma reserva de maneiras que accusava uma raça bem differente. Approximou-se com o disfarce ondulante do gato, que quer fugir sem ser visto pelo dono; puxou-lhe pela saia e murmurou-lhe ao ouvido:—que a levasse d'alli, tinha uma coisa importante a dizer...
A senhora Angelica, que tinha todas as virtudes femininas, excedia quasi o seu sexo na curiosidade. Como pôde lá se metteu com a rapariga por entre o povo, sem que nem dentro nem fóra do acampamento dessem por isso, e levou-a para o cimo da villa onde ninguem estava áquella hora.
Imaginem o espanto da pobre mulher, quando a pequena se agarra a ella a chorar:—que a escondesse, que ella não era cigana! Tinha sido roubada lá muito longe, n'uma povoação da raia. Seus paes eram ricos—o que elles a não teriam chorado e procurado por toda a parte!... Havia dois annos que andava com os ciganos pelo mundo, sem ter podido fugir! Era raro que elles acampassem em povoado e quando assim acontecia não a perdiam de vista nem uma hora. N'esse dia a festa do casamento, com a assistencia do conde, puzera tudo em confusão e ella pudera escapar-se n'uma aberta. Que a não abandonasse, a senhora Angelica!...—O que lhe fazia mais horror era o seu proximo casamento com um dos mais lindos rapazes da tribu! Dois annos a viver com aquella gente e ainda não pudera vencer a repugnancia que a affastava d'elle cada dia mais! A inferioridade de raça enchia-a d'um instinctivo tedio, quasi aversão, por esse sadio rapaz que a escolhera, sem duvida o mais amado das outras raparigas.
A senhora Angelica era mulher de expediente. Consolou-a como pôde e levou-a a um sitio isolado, um cabeço árido, cemiterio dos velhos cavallos lazarentos que os corvos vêem comer deixando os ossos a branquejar ao sol, tristemente apertado entre pinhaes, onde só ella conhecia uma gruta formada pelos rochedos sobrepostos—que decerto era a Cova da Moira.
É que uma vez, ainda em solteira, fôra para alli ao matto e descobrira a caverna. Calára-se com aquillo porque é uma tradição velhissima na terra: que entre modorno e modorninho ha sete cargas d'oiro fino,—que uma moira encantada as guarda, tecendo n'um tear de marfim e chamando alta noite de luar, por quem a vá desencantar!... E ella não quizera dizer a ninguem a sua descoberta, esperando talvez que a moira lhe desse um dia os thezoiros.