Metteu lá a sua protegida e foi levar-lhe comida á boquinha da noite.
Tres dias a teve escondida alli, com medo dos ciganos. Elles é que, postos em rebate pela fuga da prisioneira, foram-se andando sem dizerem nada e sem ninguem lhes pôr estorvos.
Só então a senhora Angelica tomou ânimo, e lá foi, mais medrosa do que vaidosa da sua obra, sem ter grande consciencia de ter andado bem, contar o caso ao administrador...
Foi um alvoroto na terra! Toda a gente quiz ir ver a menina, que veio em triumpho para a villa. Todos lhe queriam fallar e tocar, perguntando-lhe, cada um por sua vez, a historia, que ella repetia sempre, contente por poder desabafar as suas máguas. Os que não conseguiam chegar até junto d'ella abraçavam a senhora Angelica, davam-lhe os parabens, tinham-n'a já como uma gloria patria, quasi uma padeira d'Aljubarrota. Ella andava radiante, contando e recontando o caso.
Nova e maior alegria foi ainda quando chegaram os paes da menina, no louco enthusiasmo de quem chora uma filha morta e a encontra cheia de vida e saude.
A senhora Angelica foi bem recompensada, mas sempre me dizia: «que dinheiro nenhum lhe pagaria o susto em que andára muito tempo, parecendo-lhe ver ciganos em todos os cantos, punhaes e navalhas reluzentes que de todos os lados lhe dirigiam ao coração!...
Não era mentira! Tão certo como haver Deus, que aquelle rapaz, que devia casar com a menina, rondára por alli muito tempo!... Um medo assim! Nem ella sabia em que se mettera!...»
Esta era a historia da velha. Depois, o que eu compunha e arredondava!... Muitas vezes visitei a Cova da Moira e não era essa com os seus lamentos de triste encantada, com os seus cabellos d'oiro, com o seu tear de marfim, a que me enchia a imaginação. Era a pobre rapariga fugida aos ciganos, alli sósinha, temendo ser descoberta, temendo o silencio da noite, a sombra dos pinhaes, os gritos lugubres dos corvos!... Punha-me no seu logar e pensava: Senhor, como pôde ella não morrer de susto?!...
Depois, como os amantes infelizes me fizeram sempre muita pena, acabava por ter dó do cigano que queria casar com a menina e que no dizer da senhora Angelica por alli rondára muitos annos, como alma penada.