Quando maior, levaram-no um dia esses mesmos pescadores que elle se habituára a amar e a seguir humildemente. E então foi uma vida de sobresaltos e perigos, passada sobre as quatro tabuas d'um navio, tal qual um velho marinheiro muito affeito a perigos e tempestades.
D'um naufragio se salvou, salvando o capitão. Appareceu não sei como em Setubal. Depois, de mão em mão, chegou á minha.
Que nostalgia profunda a do seu olhar, quando se fitava n'essa bahia etherealmente e incomparavelmente azul! Com quanta saudade elle recordaria esses mares tão differentes, por onde a sua mocidade se passeára, sobre a tolda dos navios?!...
Nas longuissimas tardes de maio, sempre as mesmas, sempre doiradas e tepidas, eu gostava de me ir com elle até á praia. Alli, na aureola d'oiro fulvo com que o céo santifica o mar, ficava-me sonhando, os olhos fitos no pharol do Outão, que era um ponto mais brilhante na gloria do poente.
Oh! as lindas tardes, as lindas manhãs, as lindas paysagens que nós contemplâmos em extasi; veem-nos passar com a mesma serena indefferença e assim continuarão a encantar os homens na sua rapida passagem pela terra. E mais rapida ainda a d'esses pobres animaes tão intelligentes, tão bons, tão dedicados—e que tão poucos d'entre nós teem alma para comprehender e amar!
Uma noite o Algarve não appareceu ás dez horas regulamentares. Um palpite de tristeza me annuviou o espirito... Faltou essa noite e faltou em todas d'ahi em deante. Um bebedo tinha-se posto deante do seu caminho, n'uma estupida e humana graça. O cão voltou, para seguir por outra rua, e o homem, n'uma selvageria que envergonhava o animal, agarrou-o, entre as gargalhadas dos espectadores que da taverna proxima assistiam ao espectaculo—que na verdade devia ser d'uma infinita graça! O cão filou-o rijamente, sacudiu-o com os dentes e passou.
Mas a injustiça e o odio dos homens torna-os mais ferozes do que os proprios animaes. A alma—se homens como aquelle a teem—apenas lhes serve para mais conscientemente fazerem o mal.
Ao outro dia o meu pobre Algarve tinha desapparecido para sempre, levado para a suprema ignominia da sepultura dos cães vadios.