CÚMULO
[CÚMULO]
rabalhava muito, a mulhersinha. Era para admirar como um corpo tão debil podia com tanto. Ella era os recados, a lavagem das casas, as compras...
De manhã passava avergada por grandes cabazes, onde as cebolas côr de rosa conversam amigavelmente com os pimentos d'um bello verde de porcelana, a couve abre grandes folhas já murchas cobrindo as batatas ainda com terra, as cenouras doiradas, o raminho de salsa cheirosa e a carne junto da escama prateada do peixe é uma sangrenta mancha—como ramo de cravos n'um corpete branco. A extravagante mistura que as cosinheiras recebem torcendo o nariz, ralhando com as pobres compradoras e por fim acommodando-se, vencidas pela avalanche de commentarios e explicações... Tudo pela hora da morte! Não ha quem possa chegar á mais insignificante coisa! E cada vez peor. Verão que os pobres hão de morrer de fome qualquer dia!...
Com um sorriso estagnado, magrinha, grave, trabalhava muito, muito. Silenciosa, sem incommodar ninguem, passava ou, melhor, escoava-se por entre a multidão como um peixe dentro d'agua por entre os dedos da mão que o quer segurar. Não faltava ás missas, ouvia recolhida todos os sermões, frequentava as novenas, mas não tinha excessos devotos. Tudo fazia comedidamente, sem nenhum exagero.
Não sei como dizer em phrase vulgar a sua figura tenue. Que isto não dá a ideia, não completa a impressão que d'ella fica, leve como um desenho mal esboçado a esfuminho quasi limpo... Honesta, vestidinha d'escuro, aceada, faz gosto vê-la. Tem um ar senhoril, distincto, quasi d'uma velha fidalga sem fortuna que precisa agradar.