Fizera-se aguadeira—para que mais poderia servir tão inferior, tão desageitada? E mesmo isso lhe ia a faltar: os ataques não a poupavam e os cantaros partiam-se todos os dias, n'um desespero para as donas de casa que ficariam pobres com tanta despeza.

E a Victoria, vá d'entristecer, já por vezes a encontrava sentada no pateo, na ansiosa espera d'uma esmola de pão...


Uma manhã—linda manhã que ella era!—na villa muito alegre, muito branca, passava um bello ar de dia festivo. Manhã domingueira. O sol, nada quente, no rigor do inverno. Da serra da Estrella vinha uma reverberação de neve immaculada e uma aragem fininha, aguda, que fazia bem.

Para a missa passavam as mulheres dos povos, vestidas d'escuro, a capoteira de panno lustroso, o lenço de seda amarello e vermelho. As da villa afidalgavam-se com os chales de borlas, os lenços de côres mais finas. E homens e mulheres iam apressados para a missa das onze—a ultima.

Criança, eu, á janella, olhava com certo prazer o movimento do largo, quasi deserto áquella hora nos dias de trabalho.

Em frente, a estrada em sombra era toda branca ainda da geada da noite. Da fonte vinha uma grande alegria de vozes femininas, que riam alto, n'um bem estar de vida satisfeita.

A Victoria estivera lá, fallara e rira como as outras; com o cantaro á cabeça, o fato dos domingos bem aceadinho, tinha quasi um ar gentil, quando ia passando.

Preparava-me para lhe dizer adeus, n'uma alacridade d'amigas velhas. Eu, que sempre amei os humildes, os infelizes, entendia-me com a pobresinha.

A infantilidade dos meus poucos annos comprehendia bem a eterna infantilidade da sua alma inferior.