Mas, bruscamente, ella parou, estendeu os braços para a frente...—e não me esquecerá nunca a curva que o cantaro descreveu, indo despedaçar-se na terra endurecida, ao mesmo tempo que o corpo, n'uma rigidez cadaverica, caia para traz... E a cabeça no chão teve uma pancada secca, d'arrepiar!

Correram de todos os lados a soccorre-la, a levanta-la, mas o ataque epileptico veio-lhe todo inteiro n'uma loucura estrebuchante de desarticulações e esgares, n'um desespero de soffrimento que allucinava!

Na cara feiasita e habitualmente tão parada da pobre rapariga, passaram todas as expressões, as mascaras de todos os nossos sentimentos e paixões, de todas as nossas alegrias e lagrimas.

Todo um mundo cabe na cabeça d'um pobre doido.

Estarrecida de pavôr, eu ficára-me a olha-la muito fixamente, a seguir o estranho espectaculo. Agarrava-me ás grades da varanda, como se n'uma vertigem algum vento de loucura me fosse levar tambem. Que terror infantil! N'um empedramento de irresolução pela piedade e pelo espanto, eu permanecia alli, sem gritos na bocca e sem lagrimas nos olhos! O meu pequeno coração modelava-se dolorosamente n'uma concentração profunda do soffrimento alheio! É por isso que, olhando para dentro de mim mesma, eu sempre encontro, nitidas, gravadas a frio, eternas, soffredoras sempre,—as figuras tragicas dos que vi padecer e chorar...


Quando levaram a Victoria, já sem sentidos, todo o seu fato dos domingos, cuidadosamente lavado e guardado com tanto amôr, ia em farrapos!

Miseravel criatura, victima inconsciente, para quem a unica alegria da vida será a morte redemptora e pacificante!...

Só então ella dormirá em paz, no cemiterio melancolico da terra agreste e linda que unicamente conheceu na vastidão do mundo!... Os pinheiros rumorejantes, as pedras, as flores, as coisas inanimadas, comprehenderão melhor a sua pobre alma inferior.

Ás vozes mudas da natureza juntar-se-ha a sua voz—queixume de triste desdenhada pelo egoismo dos homens.