Vivia só, n'um casinhoto ao cimo da villa. Elle mesmo fazia o caldo e cosia umas batatas; a brôa comprava-a de caminho em casa da sr.ª Candida, quando á noite recolhia d'enxada ao hombro, tristonho, indifferente, para alli uma coisa sem nada lhe importar. Passava pelas mulheres com uma completa indifferença de desconhecido. Era um simples cavador, mas chamavam-lhe carpinteiro porque o pae o tinha sido; já em garoto alcunhavam-no de Manél do carpinteiro; depois, com o tempo, por abreviatura, ficára com aquelle nome.
Á custa de muita avareza e muita miseria arranjou meia duzia de vintens, e tanto pediu, tantos empenhos metteu, que na camara lhe emprasaram um bocado de serra. Mas, como a pobresa é muita n'aquella região, o povo miseravel toma os maninhos como proprios. Ninguem lhes pode tocar, sob pena de revoltas e gritos do mulherio, dos sem eira nem beira, que por vezes teem percorrido a villa esbracejando, cabellos desgrenhados, lenços escarlates a agitarem-se como bandeiras de guerra.
Os invernos são rudes e os desgraçados vivem da serra como animaes inferiores. Queimam pelas noites bravas d'invernia os sargaços verdes, que enchem de fumo os casebres e nem ao menos se desfazem crepitando risos d'oiro. Vendem aos lavradores mólhos de fetos para comprarem o pão de cada dia e as ovelhas teem o seu magro pasto por essa serraria além, entre pedreiras e pinhaes.
Temendo um levantamento, os graves senhores da camara emprasaram ao Manuel carpinteiro uma courella de terreno inculto—aquillo que não prestava para os outros.
O povo todo explodiu n'uma sonora gargalhada:—que ia fazer aquelle maluco com um bocado de maninho tão secco? Por mais que se matasse nunca lhe daria senão uma reles terra centeeira...
O Manuel arreliou-se fortemente com esses ditos e, cabeçudo como um verdadeiro beirão, arranjou uma cabanita, no meio da belga e alli vivia como um selvagem.
Trabalhava desde que o sol vinha, irrompente, até que se escondia nos poentes gloriosos dos dias longos do estio. No inverno apanhava a pé firme as chuvas, a neve, o vento e o frio. Era um labutar sem descanço, e ella, a ingrata, pagava-lhe com umas anemicas paveias de centeio, que ondeavam pallidamente, mostrando a terra branca de seixos como dentes descarnados de rapariga tysica. Elle mesmo assim a adorava, a essa belguita que ia fazendo com o seu trabalho, regando com o suor do seu rosto. Em metade plantou um bacello, mas a uva não amadurava; deu-lhe um vinho palhete muito leve, muito agradavel, mas para vender era uma desgraça—nenhum negociante lhe pegava. E no emtanto elle amava-a como se fosse uma mulher formosa, sempre prompta a pagar-lhe em sorrisos os cuidados de que a rodeava.
O que lhe falta é só agua,—dizia elle sombriamente—o mais é uma terra nova, boa de lei. E continuava a revolve-la com a ansia de quem procura thesouros. Vinham homens entendidos, os védores, ensinar o bom sitio para fazer os poços, mas tinha que os entulhar logo, quasi desanimado. Agua, onde é que ella apparecia alli?! Só a tal profundidade, que era absurdo pensar n'isso.
E o povo a rir, a rir perdidamente do desgraçado!..
Picado por esses risos, foi hypothecar a belga e metteu jornaleiros a cavar, até darem com o sangue da terra. Pedras e só pedras é que appareciam, depois, rocha viva, que foi preciso despedaçar a tiro. E elle chorava, o pobre homem!