A face distendeu-se-lhe pela primeira vez, n'um sorriso satisfeito, no dia em que um delgado fio d'agua borbulhou no fundo do poço. Balbuciava coisas sem nexo ria por entre lagrimas que lhe avermelhavam os olhos. Nem parecia o mesmo; a alegria quasi o endoideceu. Depois de ter o poço completamente forrado, tinha ainda pedra de sobejo para murar a territa; e elle tudo era pensar em grandezas.
Porque o povo começava a inveja-lo, quiz ir até ao fim, começando pelo largo portal para carro...
Mas a terra não dava os juros a dez por cento que o triste pagava—ella que apenas rende, quando muito bôa a cinco. Fallavam-lhe em penhoras, desgraças... e o rude camponio começou d'andar aturvado de juizo.
Passava dias a olhar o fundo do poço onde a agua se mostrava estagnada, negra, e ao mesmo tempo fascinante—como a prometter-lhe descanço no interior da terra bem amada.
A propriedade era tão nova que nem os fetos denticulados em primorosa renda o revestiam de verdura, nem a avenca delicada lançára ainda entre o musgo as suas hastes muito finas!...
E horas e horas que elle levava sobre uma fragil tábua, agarrado á varella do engenho com os seus braços cabelludos e fortes, fazendo descer o balde ao fundo para o tirar cheio d'agua fria, que, entornada na piasita ao lado, se ia perder na terra empapada!...
Queria muita, muita agua—era a sua ideia fixa. Parecia-lhe que só assim ella lhe daria todo o seu dinheiro. Os paus do primivo engenho, friccionados no balanço compassado, rangiam lugubres soluços, atiravam para o espaço uns gemidos estertorosos.
O desgraçado até já mettia medo, com os olhos encovados e emfebrecidos, com a magresa musculosa do seu corpo affeito a trabalhos e fomes.
Levaram-n'o então para a villa; mas os cuidados d'indifferentes servem de pouco. Ninguem mesmo se atrevia a guarda-lo de noite porque as passava a gritar—que o diabo estava alli, que um gato preto o queria afogar, que lhe roubavam a fazenda!...
Mal o sino das ave-marias dava a ultima badalada—que se envolve já nos murmurios nostalgicos da noite que se avisinha; o chocalhar dos rebanhos recolhendo ao curral, os carros chiando torturadamente, as cantigas e os risos das raparigas na fonte, as rãs, os grillos e ralos que dispertam para a sua faina palreira—fechavam-lhe por fóra a porta do casebre e deixavam-no sósinho esbravejar e gritar á vontade.