[FREIRAS]

a pallidez do poente, d'um azul cinzento, a igreja destacava-se em negro na elegancia da sua torre manuelina.

Em baixo, o largo era todo em festa; as luzes começavam a accender-se, pondo aqui e alli sorrisos d'oiro.

Olhando a massa sombria do convento, uma vaga tristeza me ganhou o espirito. Lá em cima, na pequena janella gradeada, quantos lindos olhos terão chorado, vendo o mundo com o tumultuar das suas paixões e risos, alindado pela ignorancia das suas almas prisioneiras?!...

Por mais artistico e lindo que seja um convento de frades, não me faz sonhar como os de freiras. Se eu comprehendo tão bem o martyrio das pobres almas femininas encerradas duplamente pelas grades e pela ignorancia!...

As que fugiram do mundo, porque n'elle soffreram, essas não me fazem tanta pena—tinham para companheira da sua soledade a doçura amarga das lagrimas, que recordam venturas idas...

Mas, pobres entes muitas vezes votados antes de nascer á frieza claustral, arrepia-se-me a carne só em pensar nas victimas inconscientes d'esses sacrificios barbaros!

Conta-se que aos quatro annos Santa Margarida d'Hungria tomou habito, tendo ido para o convento ainda com a ama. Aos seis trazia cilicios e aos doze professava—«já fadada para santa tinha vindo» accrescenta o chronista.