Mas as outras, que fossem mulheres verdadeiras, de carne e nervos e sangue a palpitar vida sadia e humana!... Ah, essas pobres plantas criadas em subterraneos, cahiriam estioladas na frescura dos annos. Então—sem mesmo serem choradas—iriam para a terra resgatar a mocidade em perfume de flores... Outras, affazendo-se á solidão, vivendo na phantasmagoria luminosa do flos sanctorum, iriam de degrau em degrau á loucura santificada. E, mortas tambem, seriam adoradas sobre os altares...

Não sei que doçura tristissima encontra o meu espirito em visitar os conventos de freiras, em piedosa romaria evocativa!

Aquelle de que eu mais gosto pela belleza da sua architectura rendilhada, acontece ser hoje um hospital servido por irmãs de caridade. Ao ver passar ao fundo do claustro deserto a mancha negra dos seus habitos, não sei que lufada d'outro tempo me enche a alma de sombras!

Calcando essas lages desiguaes, onde tantos corações arquejantes de fé foram descançar para sempre, uma historia me lembrou, que alguem, que alli viveu trinta annos, piedosamente me contava:

—Era quasi noite; o céo de purpura, onde o sol agonisava, esbatia-se gradualmente, vindo morrer n'um loiro cendrado, confundindo-se com a lua que se levantava em crescente. Duas freiras das mais novas passeavam pelo claustro, onde, já do seu tempo, tantas esposas do Senhor tinham ido esconder a face macerada, dormindo o eterno somno.

Que diriam ellas, assim juntas, na hora das dôces confidencias, deslizando como sombras no silencio religioso do velho claustro?... Que maguas viriam subindo da memoria longinqua dos seus amores mundanos?... Que sorrisos e que lagrimas?!...

Uma disse:—«Cheira tanto a terra!»—«Breve estarás com ella!...»—Respondeu-lhe uma voz formidavel vinda do chão, vinda da noite, das grandes casas desertas!...

E o caso é que a pobre freira entrou d'entristecer, de cahir n'uma grande e incuravel doença d'alma, que em poucos dias a levou para o supremo descanço, fazendo certa a prophecia.

Ainda este convento tinha a belleza incolume das suas columnas em marmore, a alegria dos grandes dormitorios cheios de luz, o encanto do côro todo em azulejos e atufado d'imagens santas.

Mas, outro lá para a Beira, onde eu estive uns dias, escuro, enorme, sem belleza nenhuma, pezando sobre a nossa alma com a bruta espessura das suas paredes mestras... Ah, n'esse, como seria horrivel viver!