Toda a alma portugueza fremia n'um anseio de liberdade.
Os reis fugiam despresivelmente covardes; os ricos ainda por vezes abriam os seus palacios em festa ao passeio triumphal dos invasores; só no povo era sem treguas o odio. Elle saberia resistir ou morrer! Miseravel povo que sacudiu n'um impeto de revolta olympica o jugo dos invasores e acurvou a cabeça humilde ás exigencias dos alliados! Desgraçada gente que não teve a hombridade de receber na ponta das suas baionetas ensanguentadas pelos inimigos os reis que o tinham abandonado nas horas más! Ingenuo povo que todos vão acordar em sobresalto quando o perigo bate á porta e de que todos se riem depois, quando não é já precisa a força do seu braço nem a furia da sua coragem!...
Tambem a Fornos de Maceira Dão, a esse cantinho da Beira que parecia dever estar esquecido, guardado pelos matagaes e serranias bravas, chegou o desvariado clamôr, o tremendo grito:
«Os francezes, os francezes!...» a pôr em fuga toda a familia da Clarinha—era assim chamada ha oitenta e seis annos a minha boa tia Clara.
Ella era a mais nova das irmãs; fina, graciosa, d'uma pallidez de reclusa, uma grande curiosidade perfulgindo nos seus olhos castanhos.
Ao saber a noticia o coração pulsou-lhe commovido n'uma inconfessada alegria... Qual de nós aos dezóito annos não comprehenderá essa alegria? Não ter sahido nunca do seu vetusto solar—salas e salas, quartos incontaveis, corredores tão compridos que é impossivel conhecer quem vem ao fundo!... Os santos da capella doirados e ridentes seriam os seus mais queridos companheiros, aquelles que melhor comprehenderiam a sua alma inquieta, sedenta de novo!... Se ella não havia d'estar alegre, no fundo, bem no fundo do seu coração, por essa fuga decidida que a ia tirar por algum tempo da monotona vida de todos os dias?!...
Era triste a existencia da Clarinha, passada na miseravel aldeia de casebres colmados, que rodeiam a quinta dos fidalgos como outr'ora as choupanas dos servos se encostavam medrosas ás fortificações dos castellos feudaes. As irmãs, casadas; os irmãos, passando a vida dos fidalgos d'aquelle tempo, caçavam, namoravam as primas de vinte leguas em redor, estafavam cavallos e corriam as feiras.
De quando em quando, pelas festas do anno, cortavam o fastidioso correr da vida cavalgadas que chegavam ao pateo, primos e primas que se apeavam contentes abraçando a Clarinha, que alvoraçada os vinha esperar á porta. Então, dançava-se, passeava-se e, mais do que tudo, comiam-se jantares phenomenaes e ceias lucullianas.
Mal os hospedes sahiam, a vida regulava-se tediosamente como de costume e apezar da familia ser muita, passavam uns pelos outros como sombras na enormidade da casa. Quantas vezes, pelas agonisantes tardes d'outomno, não atravessou ella a quinta e subindo o outeiro em frente se foi sentar nos degraus do Santo Christo, phantasiando o mundo, sonhando com alguma coisa nova que a fizesse soffrer e viver?!...
Já então, como agora, como será d'aqui a muitos annos, a imagem do Christo era ingenuamente feita d'uma fealdade que espanta, escondendo-se no seu nicho branco, erguendo na tristeza da paysagem os braços misericordiosos de Deus moribundo perdoando sempre á humanidade que chora.