Como agora tambem, a Clarinha ouvia pela quebrada das serras os carros chiando carregados com as dornas para os lagares... Os bois olhavam'na pensativos, sacudindo as cabeças phylosophicamente, fazendo retinir as campainhas das colleiras de coiro que lhes cingem os cachaços robustos... Primitiva e sempre egual a vida passada n'aquelle recanto de natureza agreste.
Que admira pois que a Clarinha ficasse intimamente alegre quando o medo aos francezes a atirou para longe—como um passarito engaiolado a quem de subito abrissem as portas do carcere e visse diante de si o luminoso espaço onde á vontade poderia bater as azas!?...
«Os francezes, os francezes!...» Era alguma coisa de vivo, e espirituoso e brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava.
N'essa tarde luminosa de fins de setembro os cavallos esperavam no pateo desde muito e só a Clarinha, impaciente, estava montada. Toda a familia partia: quarenta pessoas, entre velhos, mulheres, crianças e criados—que eram, patriarchalmente, uma continuação menor da familia. Os homens válidos, os rapazes, esses lá andavam pela guerra, e bastante invejados pela Clarinha!.. Os velhos despediam-se chorosos. Arrancavam-se d'alli como quem tirasse d'um peito ainda vivo um coração sangrento. Fugia-lhes a vida em gemidos. Os cedros da quinta tinham para elles a maguada significação dos cyprestes da igreja, onde toda a sua familia, desde seculos, ia dormir descançadamente; mais felizes eram esses...
Pela madrugada chegaram a Vizeu. Deserta a pequena cidade, de sombrias e tortuosas ruas. Os cavallos batiam rijamente nas calçadas, pondo em sobresalto os pacificos habitantes. Abriam-se janellas a medo e caras enfiadas de susto espreitavam inquerindo: seriam os francezes?!...—Não, não eram ainda, mas gente que fugia d'elles!...—Então sempre era certo; vinham, vinham!...—E as janellas fechavam-se rapidamente como se quizessem espancar assim a visão dos francezes, monstros de pezadello!
Caminhavam sempre. Em São Pedro do Sul, a mais risonha terra da Beira, um jardim que a natureza cultiva amoravelmente entre as rudes serranias beirãs, o mesmo pânico estampado em todos os rostos que entreviam—que raros eram!.. Um deserto que se fazia por toda a parte ao grito terrificante: «Os francezes, os francezes!...»
E esse grito de pavôr perseguia-os sempre, como dobre a finados para os velhos e medo para as criancitas—que imaginavam o papão formidavel e negro levando os meninos nas garras aduncas!.. Só as mulheres, com o espirito mais vivo, mais aventuroso, começavam a achar deliciosa aquella correria louca diante do desconhecido. Para a Clarinha era sempre a mesma ideia:—elles seriam alguma coisa de vivo e espirituoso e brilhante, que ella não conhecia, mas que a não assustava!...
A noite cahia muito fria, d'esse frio secco e cortante da serra. As estrellas brilhavam mais do que nunca, com um nervoso piscar d'olhos bonitos... Ella olhava-as, sonhando acordada!—Via um cavalleiro vestido d'oiro que levava pela estrada da via lactea todo um povo conquistador e bello... E uma aguia enorme, com azas feitas de soes, cobria o mundo n'uma efabulação de luz!...
Alli tiveram que parar algumas horas. O pequenino irmão da Clarinha, o mais novo da familia, a criança que ella amava já com entranhas maternaes, ficou-lhe sem vida nos braços, morto quasi repentinamente pelo frio e incommodidades da jornada. E esse pequenino corpo que em circunstancias normaes ella teria chorado desesperada, cobrindo-o de beijos, sahiu-lhe quasi indifferentemente dos braços fatigados. Era a propria mãe que lhe dizia que não chorassem; era preciso fugir, fugir, fugir sempre: «Os francezes, os francezes!...» Era a propria mãe, tão estremosa, tão cheia de cuidados por todos, quem dizia aquillo!... Pasmava.
Bem certo é que as grandes dores se fazem pequenas quando não ha tempo para as sentir. O medo é um grande consolador.