ara a minha rica mana Rosa!...»

Por acaso, n'uma caixa aromatica de xarão vinda de minha avó, encontrei um dia, entre pequenas coisas d'outro tempo e cartas de familia, uma que decerto foi—ha muitos annos já—lida e relida por uns adoraveis olhos azues que bastante devem ter chorado as tristezas do exilio...

Velha carta amarellecida, quebrada de antigas dobras, n'um antiquissimo papel—como ella evoca, ao meu espirito historias quasi phantasticas para nós, d'essas existencias decorridas ha tantos, tantos annos!...

«Minha querida mana Rosa do meu coração!...»

São adoraveis essas cartas d'antigamente, feitas com uma simpleza e uma ingenuidade quasi infantis—como não somos já capazes de fazer! E elles sentiam tanto como nós sentimos; mais ainda talvez...

Não eram as separações quasi eternas? Quem poderia esperar, ao sahir de Macau, n'uma longuissima viagem em navio á vela, que decorridos annos tornaria a ver essa familia muito querida, deixada por outra mais querida ainda?!

Quanta amargura, quanta tristeza, nos dizem essas pequenas cartas criancilmente simples, a quasi nos fazer sorrir! É que a alma humana não tinha chegado ainda á suprema tortura de se sentir pensar, de se saber despedaçar aos bocadinhos, palavra por palavra, lettra por lettra, lagrima por lagrima!... Não tinha chegado ainda ao espiritual impudor com que nós procuramos traduzir em phrases bem redondas, bem nitidas, bem palpitantes, a amargura que nos cava fundo no coração.