Ao dar com essa singela carta de ha muitos annos, uma grande sympathia, envolta em uma especie de saudade, me veio por as encantadoras figurinhas do tempo passado, sorridentes, frageis, movendo-se musicalmente na graça antiga do minuete passeado...

Vejo-as: com os seus grandes chapeos á directorio, de cintas muito curtas e leques de plumas, levantando graceis os vestidos compridos,—mostrando, n'uma coquetterie quasi infantil, a meia de seda clara arrendada, com fitas a enlaçar, como era a moda.

Têm uma doçura pallida, um encanto murcho d'outros tempos, um perfume apagado, immaterial,—essas historias tão graciosas e tão puras.

É com meiga tristeza que recordâmos todas as que foram lindas e amadas ha muitos annos e hoje desapparecem no pó!... Finas silhouettes que os nossos filhos nem já saberão distinguir no montão de saudades que lhe vamos accumulando!

É um delicado prazer do espirito relembra-las assim, uma por uma, essas empallidecidas figuras de mulheres formosas vestidas com antigos trajos—que eu só posso imaginar bonitas e moças, e tão velhinhas seriam se ainda podessem existir!

E foram bellas e foram novas e foram amadas—essas que hoje não são mais do que sombras!


Mas para escrever uma historia d'essas—feita de ligeirissimos esboços, de recordações muito vagas, quasi de tenuidades de sonho...—quanta concentração de bondade, e delicadeza e amôr é necessario?!...

Ao olhar, ao tocar um pequenino retalho de seda que serviu outr'ora n'um vestido de noivado,—toda a nossa alma hade estremecer n'uma saudade fugitiva, o nosso coração vibrar palpitando, como proprias, as alegrias e as tristezas de todos aquelles que no mundo passaram...

É como se os vissemos diante de nós, sangrando ainda todo o amargo soffrimento da vida...