Minha querida mana Rosa...

Rosa—apesar de se chamar Anna, essa linda irmãsinha, a que o rosado das faces déra esse nome deliciosamente familiar e perfumadamente fresco—n'uma calligraphia larga, antiga, n'um portuguez estrangeirado, ella vae dizendo as saudades e as tristezas que a vinda para Portugal da irmã mais amada lhe deixára na alma.

Nem um grito, nenhuma revolta. Na rectidão do seu espirito de ingleza essa partida era um dever sagrado, que não se devia amargurar por inuteis lagrimas.

E nada litteraria essa ingenua carta d'uma doce e loira inglezinha nascida lá muito longe, na velha terra de Macau. Conselhos para a viagem, d'uma graça toda maternal e muito prática:—«Não he bom tomar caldo de gallinha emquanto está enjoado. Hade fazer muito mal. Eu mando dôce de laranja. Diz que é muito bom comer quando está enjoada. E um pouco de gengibre salgado. Deixa ficar um bocado na bocca, sempre...»—E por fim, quasi n'um soluço: «Adeus minha querida mana, mande noticias suas sempre, para socegar este afflicto coração.»—Saudades, beijos aos sobrinhos,—assignado: Julianna Moor.

Ao ler este nome eu recordei, quasi involuntariamente, toda essa historia, bem certa, que minha avó contou aos filhos, que os filhos nos contaram a nós.

Sim, era ella, foi ella, essa pobre e querida irmã deixada para sempre, que á despedida lhe disse:—«ai minha rica mana que não nos tornâmos a ver!... Mas eu irei despedir-me de ti!...»

E veio. É tão sympathica ao meu espirito essa pequena historia, ouvia-a tanta vez contada por minha mãe—que eu tambem a posso contar como se a ella assistisse.

Primeiro, eu as imagino, a essas candidas figuras d'inglezitas, vestidas de seda clara, muito loiras, com a ingenuidade idealista da sua raça, apaixonadas aos quinze annos por estrangeiros, que as levariam para longe—o pae bem o previa!.. Mas n'essa idade quem presente as lagrimas que as alegrias trazem comsigo?!

E tambem a contemplo, á minha linda avósinha, com os seus deliciosos quinze annos, o cabello muito loiro em bandós encaracolados, uma fita estreita a fazer a cinta debaixo dos braços, os hombros quasi infantis a destacarem muito brancos na seda rosa do vestido imperio...