Muito linda, muito linda! Tal qual me sorri na miniatura encantadora que tenho aqui diante dos meus olhos.

E a outra devia ser parecida—quasi eguaes, como duas pombas sahidas do mesmo ninho. Alegres e felizes ambas por bastantes annos ainda, na terra que as vira nascer, crescer e amar. E os filhos da outra, tão amados por ambas que só na separação distinguiram a verdadeira mãe...

Mas tinha de ser. Uma vinha para Portugal na nova familia que ella criára; tão estremecidamente amada no dia em que morreu como no dia em que casou. A outra lá seguiu com o marido para Goa, na logica dos seus destinos e da sua raça.


Mas uma noite...

Já muitos annos tinham passado; aquella que fôra uma gentil criança era então uma formosa mulher, ao de leve empallidecida, de sorriso a murchar, conhecendo já o amargôr das lagrimas... Ella não esquecêra ainda essa familia querida, deixada tão longe, deixada para sempre!... E a irmã, que amava mais que a todos, quando a veria?... Pedia-lhe o coração que fosse bem tarde—porque era uma certeza para o seu espirito que só á alma, desprendida do corpo para sempre, seria dado esse infinito prazer...

Uma noite ella dormia serena, junto do marido, quando uma voz a chamou de manso... Como não acordasse de todo, julgando-se a sonhar,—tres pancadas dadas muito de leve na cama despertaram-na completamente.

Era ella, a irmã muito querida, n'uma sombra suave, que não assustava ninguem. Sentava-se-lhe á cabeceira, sorria, dizia-lhe n'uma caricia de voz ciciada:—«Cumpro a minha promessa, venho despedir-me!...»—E muito baixo, com uma infinita magua de mãe:—«Ah, custa-me muito deixar a minha Julianna! É a mais nova... E não lh'a poder entregar!...»—Levantando-se, desvaneceu-se silenciosamente n'um raio de luar que vinha pela janella mal fechada.

Ella olhava, olhava ainda, procurando na solidão do quarto a imagem da irmã, que lhe apparecia tal qual era e tão differente do que fôra! Só a voz era a mesma. De resto—quasi a não poderia reconhecer n'essa ligeira sombra vestida á moda do tempo, tão differente d'aquella em que a deixára: a cinta muito comprida, a saia de largo balão, o fechu de rendas que aconchegava com a mão esguia, muito fina, ao pescoço nu!

Era ella, bem certo que era ella!... A côr do vestido ficou-lhe bem nitida na memoria—azul pallido, quasi prateado...