Soror Angelica, como superiora e como amiga, continha-a e aconselhava-a a conformar-se com a vontade de Deus...

—«Depois,—dizia-lhe ella, um dia, aspirando deliciada a flôr perfumosa duma angelica que se abria num vaso colocado na varanda da sua céla de superiora, mimo gracioso duma das suas amigas da cidade—depois, Soror Manoela, de que lhe serve ir contra a vontade de sua mãe?!... Não é ella a senhora da casa?... Não é ella que tem só o poder do dinheiro?»

—«É a senhora, porque nós, os filhos, assim o queremos; mas não sabe, Madre Angelica, que temos direito a puxar pela herança de meu pai e exigirmos a nossa{220} parte?... Por pouco que seja, dar-me-ha o bastante para viver com a minha filha...

Por menos que Manoela soubesse das leis que governam os homens, sabia o bastante, pelas relações mundanas entretidas entre o convento e a sociedade, para conhecer o direito que a tornava senhora da sua pessôa e da sua fortuna.

—«Revoltar-se, Soror Manoela, cuida que isso lhe daria felicidade?!... Santo Deus! Os pais representam na terra a autoridade divina. Triste daquelle que no pecado procura a coragem bastante para lhe fugir!...

—«No pecado?...—murmurou Manoela, limpando as lagrimas.—E não será maior pecado o meu se deixar morrer ao abandôno a minha filha, esse pobre anjo que não tem culpa nenhuma de têr sido chamada á vida?!...

—«Sim, é uma grande culpa que sua mãe levará ao tribunal supremo, mas quanto maior não seria a sua, minha pobre filha, se levasse a de rebeldia e de orgulho filial!... Não chore! Tenha resignação; se soubesse quantas lagrimas têm chorado outros que... que... que por fim se resignaram a não viver senão com a esperança na morte!...

E Soror Angelica desviou-se um pouco, abafando no lenço um soluço que não poude vencer.{221}

—«Madre Angelica?!...—interrogou ansiosa a recolhida.—Porque chora? Tambem, como eu, sabe o que é sofrer o pêso duma vontade alheia, que esmaga o coração?

—«Ah, minha filha, se sei!... Não queira, Soror Manoela, sofrer como eu sofri... como nós sofremos... a tirania duma ordem, que despedaçou duas existencias!...