Já não rezava como dantes, mas ainda passava no côro as melhores horas da sua vida, ajoelhando-se de preferencia diante duma grande Virgem que a lenda dos seus milagres tornava célebre em toda a cidade.
Dizia a crónica:—que essa imagem viera de Candia com destino a Espanha e fôra por milagre trazida á cidade. Recebida entre musica e fogos de artificio, foi levada em procissão e confiada ás freiras que tinham fama de mais virtudes entre todos os conventos da terra. De tal maneira se avigorou a fé nos milagres da formosa imagem que raro era o dia em que a irmã rodeira não recebia, de pobres criaturas sofredoras, bilhetes e cartas implorativas dirigidas á Virgem para sêrem colocadas sob a sua guarda. A crença no{217} milagre, o último refugio dos fracos que não podem resistir á dôr, fizera da bela Senhora uma consoladora permanente como dispensadora desse beneficio inestimavel para a maior parte dos sêres humanos: a ilusão.
Tambem Manoela se afervorava na devoção pela milagrosa imagem; mas o motivo que a arrastava até aos seus pés e a prostrava agora em extasis era mais humano do que mistico. É que diante dessa Virgem, que era uma mulher que a escultura traçara com toda a verdade, sustentando nos braços um pequenino Jesus, filho humano e verdadeiro, que ella, humanamente mãe, acariciava com a doçura do seu olhar veludoso e a caricia dum sorriso angelical, sentia a sua alma pacificada, sentia-se irmanada no mesmo sentimento.
Essa mulher, mãe dum Deus, não a perturbava, porque era bem mulher, bem maternal, para compreender o sobresalto do seu coração, a saüdade que a sufocava por esse pequenino corpo adoravel, leitoso e macio, que apenas podera vêr e beijar á nascença. Aspirava pela caricia dos seus braços roliços e da sua boquinha perfumada; morria de paixão por esse entesinho dealbante, que lá longe ia crescendo e vivendo rudemente entre camponêses, que mal a saberiam amar.{218}
[IV]
Num inverno humido e triste em que o claustro, a igreja e o palratorio chegaram a sofrer uma inundação que muito assustou a comunidade, Manoela tremia arrepiada sob o mantéo curto das recolhidas, e pensava com horror no frio que arroxearia as pequeninas mãos da filha que se aninharia ao canto da lareira fumarenta da miseravel casa onde se criava, por essa invernia inclemente que tudo abafava sob a nevada deslumbrante.
Sentia o pavôr da sua almasinha trémula, quando os lobos esfomeados rondassem o povoado, acossados da montanha pela neve, e as ovelhitas timidas se aconchegassem no curral balando tristemente.
Ah, ella não podia acostumar-se á ideia de que a filha, a sua querida filha, viveria assim eternamente sem conforto nem os mimos que para ella sonhava.
Já por vezes tinha tentado convencer a mãe, levá-la ao esquecimento e á tolerancia pelas suas humildes súplicas, mas nada até ahi a tinha demovido do seu proposito de conservar em misterio a existencia daquella criança que{219} a seu vêr não era do mesmo sangue que das suas veias tinha passado ás da filha, e da filha á neta, na continuidade fatal da natureza.
Manoela insistia, pedia ainda; mas a força instintiva do amôr maternal, que a impulsionava agora, começava a fazê-la admitir a revolta contra esse poder que a natureza naturalmente afrouxa, porque assim o acha necessario para a conservação da especie, embora os homens o tenham querido fortalecer com as suas leis e costumes antinaturais.