A filha!... Quasi a tinha esquecido, naquelle viver sem consciencia de si propria, que fôra a sua existencia ali.
Como podera resignar-se durante tanto tempo só com a certeza de que esse pequenino anjo, que era a carne da sua propria carne, vivia, nessa terra longinqua e áspera, sob os cuidados da velha Ama-Rita? Sentia remorsos e agradecia intimamente á bôa serviçal, que assim a chamava á vida lembrando-lhe o cumprimento do seu dever.
Relendo aquella frase incolôr, sentia que dentro da sua alma se ia levantando outro altar, criando uma nova religião, que mal sabia como era dificil de harmonisar.
Encostada ás grades da janela do dormitorio, para onde viera na ânsia de se encontrar{215} a sós com a sua propria alma, olhava o campo que se estendia num verde luminoso, com um castelo ao fundo, na imponencia de cenografia espétaculosa.
Na cerca a nóra gemia e a agua cahia no tanque donde era tirada para as regas.
Esse murmurar da agua corrente evocava-lhe o passado distante, a sua terra, o fiosinho de agua transparente a deslisar por entre os choupos, ao fundo da sua quinta, e aquella pequenina enseada onde se ia esconder, num desejo calmo de solidão, a olhar a agua saltando de pedra em pedra num grande esforço de quem vem exausto de longa caminhada.
Recordava, com tanta saüdade que chegava a sêr uma dôr material, essa época tão afastada para o seu espirito que já parecia têr pertencido a outra existencia, as horas que passara ali sósinha, idealisando um futuro de poesia e de romance, como o idealisam sempre as mulheres que uma educação racional não preparou para entrar na vida pela porta ampla e sem mentidos encantos da realidade.
Recordando todo esse passado, para sempre morto, a sua alma tão cruelmente torturada e tão profundamente humana acordava num alvoroço.{216}
Chamavam-na para a vida, e ella vinha toda inteira, corpo palpitante, coração sangrento pronto a entregar-se a um novo ideal.
Desde esse dia nunca mais deixou de pensar na filha, que se tornou a sua obsessão; sentia-lhe a vózinha de choro chamando-a mãe; via-lhe o pequenino rosto, que idealisava duma pureza de linhas que só igualariam os anjos das pinturas rafaelescas; tremia com a ideia de que podia uma doença cruel arrebatá-la sem que a tivesse uma vez sequer acalentado nos braços.