Os paineis, que a rodeavam, sobresahiam das largas molduras doiradas e entalhadas, pelo colorido um pouco frio e o desenho convencional e rigido do estilo que se impunha no tempo em que uma grande dama da côrte se lembrara, apaziguando talvez recordações importunas duma mocidade cheia de dôces culpas, de fundar aquella santa casa onde, propositadamente, só á igreja fôra dada a magnificencia e o fausto devidos ao Senhor{212} omnipotente, dispensador de todas as graças, arbitro de todo o julgamento. Para as Esposas, as virgens oferecidas como vítimas expiatorias do pecado deleitoso da fundadora, a humildade, o desconforto, e a asperesa da regra.

Contemplando a igreja, Manoela sentia-se amar um Deus imenso e magestoso, arrastando purpuras e fazendo refulgir as joias da sua corôa imperial por catedrais goticas de naves resoantes, cheias de grandezas e misterio. Prostrava-se ante o seu trôno de luz nessa côrte celestial tão fantastica e deslumbrante, que lhe descreviam as almas crédulas e os livros piedosos.

O Christo torturado, empalidecido e humanisado pela dôr, não o compreendia ali, no luxo e na grandeza da arte, como o poderia compreender na igreja humilde da sua modesta aldeia.

Ali era um Deus para camponezes e para as almas simples; aqui era um Deus aristocratico e soberbo que se impunha aos grandes e aos poderosos.

Prêsa naquelle deslumbramento, que a fazia viver uma existencia á parte, Manoela assim iria gastando a existencia se não viesse um banal incidente chamá-la a si, chamando-a á vida com novos interesses e novos deveres a cumprir.{213}

Ama-Rita, a bôa mulher que nunca a esquecêra, escrevia-lhe uma longa carta, de letra tortuosa, quasi ininteligivel, que ella decifrava a custo. «Só passados sete anos lhe escrevia, porque a senhora lho tinha prohibido e, não sabendo escrever, não confiava em ninguem da terra para fazer uma coisa contra a sua ordem. Agora era a sobrinha, a Luisa da Roda, que o fazia. A menina devia lembrar-se della, eram da mesma criação, tinham brincado bastante em pequenitas... Viera de servir, mas tão doente que o mais certo era não poder voltar. Podiam confiar nella e emquanto vivesse não teria a menina falta de cartas».

Manoela tinha os olhos rasos de lagrimas ao pensar na pobre rapariga, talvez tisica, que tinha sido sua companheira de infancia, dessa breve infancia que lhe vinha, numa lufada sã, evocada por essa mal redigida carta de camponia. Era um pedaço da sua rude terra, que a urze e o rosmaninho incensavam.

Depois, as noticias alongavam-se:—este que tinha ido para o Brazil, aquelle que voltara da tropa, casamentos, bátisados, mortes... e porfim, numa linha só, como misteriosamente, a causa primaria de se ter escrito aquella grande carta:—«A menina criava-se muito bem; a menina era muito linda».{214}

Mais nada... E, no entanto, que mundo novo de pensamentos e de paixões essas poucas palavras desenrolavam diante dos olhos e do coração da triste reclusa!

O seu espirito, adormentado numa crise de misticismo para que a predispunha o meio ambiente, reagia agora com toda a energia, porque a sua alma não era feita para vagas abstrações; antes fôra, era, e seria sempre, uma mulher humana, nascida para viver e sentir humanamente a vida, com todas as suas amarguras e alegrias compensadoras.