Sentia-se apossada de todo esse vasto casarão, que parecia crescer a cada nova baixa que a morte marcava, com a sua fatalidade cega de força inconsciente, na comunidade já tão diminuida.{233}

Era a herdeira natural e incontestada dos santos que lhe iam deixando as pobres vélhinhas, como recordação, e na vaga esperança de que assim viveriam mais na sua memoria, unico abrigo ás suas almas exauridas.

Das freiras que ao entrar a tinham enchido de blandicias e amimalhado como mães carinhosas, já poucas existiam. Iam-se mirrando e fenecendo, seguidamente umas atraz das outras, quasi sem doença e sem sofrimento, num descahir e murchar de vontade que nenhum ideal sustenta.

Apenas três ou quatro vélhinhas entorpecidas pelos anos, Madre Angelica ainda energica apesar da sua idade e da sua dolorida existencia, e Madre Claudea cada vez mais dificil de aturar, fugindo endoidecida do convivio dos outros, seguindo apenas automaticamente as devoções obrigatorias do côro, que eram como que um farrapo de lucidez a alvejar no seu triste espirito entenebrecido. Chorava dias inteiros, com gritos dilacerantes, os pecados do mundo, que queria carregar sobre os seus miseraveis hombros, mais do que os dos outros pecadores, sem esperança de perdão. Tinha visões que assustavam as meninas do côro, e apavorava as criadas narrando-lhes: como na igreja do convento fôra uma vez enterrado um grande fidalgo da cidade cuja{234} alma em pena o diabo veiu buscar com medonho barulho. Ella não se lembrava, Soror Claudea não era desse tempo; mas ouvira contar bastas vezes ás santas freirinhas que tinham assistido a essa luta homerica do diabo, querendo levar uma alma abrigada pelas paredes santas daquella virtuosa casa. O fidalgo durante toda a vida não tivera uma palavra de justiça nem de piedade para ninguem, nem se lembrava de minorar a miseria alheia, a não sêr por orgulho e fama. Assim, logo que morreu e que o trouxeram com pompas principescas ao carneiro de familia, feito na igreja por deferencia especial a quem muito protegera a comunidade, um verdadeiro e espesso nevoeiro se levantou logo do chão escurecendo a vista ás freiras, que nem podiam distinguir o padre oficiando no altar. E, á noite, o ruido era tanto pela nave magestosa, que as freiras atemorisadas deixaram de abrir as grades do côro para as rezas noturnas. Era impossivel resistir ao pânico que se apoderou daquelle rancho de mulheres, que viam e ouviam tudo quanto diziam vêr e ouvir por um fenomeno vulgar de sugestão, que tanto milagre tem feito no mundo.

Madre Claudea descrevia e pormenorisava, então, a festa do exorcismo que fôra feita por santos monges arrabidos auxiliados por{235} todas as outras comunidades dos arredores, que de cruz alçada entraram na igreja. Aberta a sepultura e aspergido o cadaver, uma nuvem negra sahiu da cova espalhando-se pela igreja e sahindo pela porta entre-aberta com fragôr. Depois tudo cahira no silencio, tudo se pacificara, ouvindo-se apenas as orações dos frades prostrados de joelhos num santo respeito por tão grande castigo.

E quando fôram vêr a cova... não continha mais do que um punhado de cinza!

Madre Claudea benzia-se murmurando exorcismos e orações, e as ouvintes entre-olhavam-se sentindo pela espinha um arrepio de pavôr.

E não era só isto o que ella sabia. Uma ocasião—isso já fôra talvez ha seculos, mas o Livro da fundação lá o tinha escrito—aparecera um rapazinho trazendo um feixe de varas resequidas que ofereceu á irmã rodeira para plantar na cerca. Se ella as plantasse veria como dum instante para o outro, por milagre do Senhor, cresceriam logo e se tornariam em belas e frondosas arvores. A irmã rodeira ralhou com o garoto e despediu-o; mas como nessa ocasião passasse uma noviça, criança e amiga de brincar, disse-lhe com empenho:—deixe-me experimentar, irmã rodeira; não faz mal nenhum e sempre a gente se rirá da lembrança do rapazinho.{236}

Assim foi. Pegou numa das varas e foi a correr enterrá-la na cerca, seguida por outras noviças em recreio.

Imediatamente—Santo Deus, os maleficios que faz o mafarrico!—a vara engrossou e cresceu desproporcionadamente e tornando-se numa arvore magnifica encheu de assombro as pobres noviças, que viam, sobre ella, uma multidão de macacos fazendo-lhes negaças. Foi o inferno na casa! Todas as que olhavam a arvore maldita ficavam possuidas do espirito imundo e faziam os maiores desacertos e gritarias. Como toda a comunidade corria a vêr a causa de tal alvoroço, toda ella sofreu do mesmo mal, e têr-se-iam perdido todas, certamente, se não fôsse a Madre Superiora, que, antes de mais nada, mandara chamar pela moça de recados os senhores capelães e confessores para pôr termo áquelle inferno com as suas preces e esconjuros.