Madre Claudea sabia mais e mais, mas já se não lembrava bem e a sua memoria fraquejava ao recordar tantas coisas idas... Apertava a cabeça com as mãos e chorava, num chôro desfeito e infantil que enchia de lagrimas todos os olhos.
Só Manoela podia apaziguá-la e por assim dizer chamá-la á realidade e, com a sua voz persuasiva e grave, fazê-la socegar e adormecer{237} confiada como uma pobre inocente. E olhando-a esqualida e apenas com os ossos cobertos por uma péle resequida e empergaminhada, Manoela pensava com amargura na linda rapariga que ella fôra, segundo lhe contara Madre Angelica, amada com paixão, amando com loucura, vítima de interesses e preconceitos alheios, um dia rebelde e desvairada rompendo com todas as peias, logo humilhada e cheia de remorsos, entrepondo-se voluntariamente á vida que engeitara, num terror atavico de escravo que não sabe o que hade fazer á liberdade, com sacrificios heroicos.
Tambem Manoela teve um dia, e quando menos a esperava, depois de tantos anos de sujeição, a sua alforria, e tambem, como ella, a não soube usar, porque a sua vontade longamente oprimida não se fortalecera e definira.
Ao princípio, quando chegou, a noticia da morte repentina da mãe, não se compenetrou bem do que essa morte representava para a sua existencia e apenas se sentiu surpreendida—não tendo a pretensão de querer sofrer, por costume, o que de facto não sentia, por aféto.
Mas, relendo melhor as cartas do irmão e da Ama-Rita, compreendeu por fim que{238} era rica e senhora absoluta da sua pessôa. Isto não lhe podia de pronto dar a sensação da liberdade que por vezes pensara deveria sentir, porque o hábito lhe dera uma nova servidão, que os timidos e os prisioneiros conhecem.
Mas, a pouco e pouco apossando-se de si mesma, resolveu fazer prontamente o que havia tanto desejava com ânsia: mandar buscar a filha, reconhecê-la como tal, e conservá-la junto do seu coração e até á morte, triplicando em carinhos os anos de amargurada saüdade em que a tinham conservado.
Foi têr com Madre Angelica, que era ainda a Superiora venerada e querida, que anos antes a acolhera no seu coração maternal.
Parecia outra, galgando lestamente as escadarias e correndo pelos corredores que levavam até á céla da Superiora, que já quasi nunca sahia do seu cantinho cheio de sol. Com os seus trinta e quatro anos vividos numa vida quasi vegetativa, os traços finos do seu rosto, que fôra duma formosura discreta de morena, conservavam, apesar de tudo, a delicadeza e a graça ingenua que fôram o grande encanto da sua mocidade, quando a tinham trazido para ali.
Nos momentos—raros momentos que elles fôram!—de perfeita felicidade para o seu{239} coração, toda a sua pessôa irradiava uma alegria confiante, que a tornavam singularmente encantadora.
Quando Madre Angelica levantou os olhos do livro de orações para dar a licença que ella lhe pedia á porta, foi já com o assombro que causa uma grande mudança numa pessôa querida, porque a propria voz da recolhida era outra—um novo timbre de alegria a fazia desconhecivel.