Apressou o passo até avistar a grande nogueira, plantada no ano do nascimento de Eduarda, e que já no seu tempo era uma bela arvore que desafiava a cubiça do rapazio que de fóra namorava as suas verdes nozes de bôa casta. Se não fosse noite poderia vêr no tronco rugoso as iniciais do seu nome, que Eduarda tinha aberto, na vespera da sua partida para o colegio.

Mas ao chegar junto á arvore, donde se descobria todo o quintal, não poude reprimir um gesto de pavôr.

Ah, para que viera ali, numa febre apreensiva de lembranças,—para reviver uma vida que já não existiria mais, para materialisar{30} uma saudade que já não poderia sêr realidade... para quê?!...

Bem lho dissera Eduarda, aconselhando-o a não dar ao passado mais do que a melancolica e vaga recordação que merece, e lembrando-lhe o dever de caminhar para a frente, de viver, como ella, uma nova vida mais nobre e mais cheia de ideais, que a faziam até abençoar esse desastre material que a libertara de preconceitos e costumes seculares...

Mas elle sofria verdadeiramente e intensissimamente; era uma dôr material como a de lhe cortarem um pedaço do seu proprio corpo, ao vêr que tambem o pomar não soubera resistir á mudança de proprietario, na sua passividade de natureza vegetativa.

Oh, as lindas arvores de fruto, as ruas de plumeiras decorativas,—inuteis para o criterio mesquinho do vulgo—os crisântemos estrelados, os lirios rôxos, as roseiras já grossas como arvores, tudo, tudo fôra sacrificado ao ignobil desejo do lucro. Tudo desaparecêra, para dar logar á vinha!

Como sofria com tal hecatombe, e como sentia no seu proprio sêr os gemidos doloridos das suas plantas mortas, cujas almas erravam ali sem dúvida—elle ouvia-lhes e compreendia-lhes as queixas esparsas naquelle ar triste de cemiterio...{31}

Vinha: toda a horta, todo o pomar, o seu proprio jardinzinho cultivado com tanto disvelo!

Um soluço lhe subiu do peito oprimido, e as lagrimas vieram-lhe, sem querer, aos olhos ardentes.

O quintal tinha pouca agua, sim, elle sabia isso,—fôra até a grande preocupação da familia—estando numa encosta que declivava dôcemente até ao ribeiro... Mas nunca lá tinha morrido nada com sêde; pelo contrario, as arvores desenvolviam-se a olhos vistos.