Todo o desespero das coisas fatalmente irremediaveis o sacudia e fazia halucinadamente padecer.

A vinha! Como detestava essa planta, de que transformam em subtil veneno o dôce e aromatico sumo do seu fruto, e que estropia mais criaturas e faz correr mais sangue e mais lagrimas pelo mundo do que exercitos em campanha!

Como se tornava odiosa aos seus olhos essa planta, que torce convulsamente para o céo os braços descarnados de esqueleto, e como a desejaria queimar, numa furia vingativa de inquisidor!

Luis amaldiçoava mil vezes essa planta, que é tão estimada, porque representa a cupidez explorando o vicio.{32}

Diante dos seus olhos, embaciados pelas lagrimas, todos esses troncos nus se animavam e viviam dançando numa roda selvatica de possessos.

Como detestava entranhadamente, sagradamente, a vinha!

Não lhe lembrava, por certo, a alegria rubra e ruidosa das vindimas, quando elles iam todos, pelos poentes fulvos dos lindos outônos da sua terra, ás propriedades de fóra, e voltavam atraz dos carros que as dornas a transbordar faziam chiar doridamente, ora enterrando-se na areia solta das azinhagas orladas de silvas, ora trambulhando pelas lages e pedras dos caminhos carreteiros.

Nem sequer recordava o delicado e suave perfume a resêda da vinha em flôr, quando na primavera as noites são frescas e os rouxinois cantam pelas ramarias os lirismos dos seus amôres e as romanzas dos seus noivados.

Via sómente os esqueletos tristes que tinham expulso as suas arvores amadas, as suas flôres escolhidas, as esbeltas trepadeiras, tudo emfim que fazia o encanto daquelle pedaço de natureza que fôra uma parte da sua propria alma e deixara de existir para sempre.

Luis abraçou a nogueira, numa última expansão de sentimental, beijou-a devotamente, como a uma velha amiga que se lhe tivesse{33} conservado fiel ao coração, e afastou-se lentamente daquelle logar que fôra de martirio para a sua alma, como a mêsa de operações dum hospital onde se amputa um membro infermo.