—«Minha amiga?! Se o fôsse, não me prendia aqui como uma criminosa. Se o fôsse, não me chamava afilhada—quando eu sei muito bem que tenho outro nome...

Manoela interrompeu-a com um grito desvairado:

—«Christina, Christina, cala-te! Tu não sabes, tu não podes compreender nada do tormento da minha vida!...

—«Ah, sim, um bom meio de me obrigar a calar, quando eu posso falar porque sou sua filha—respondeu brutalmente.

Manoela empalideceu; aos seus ouvidos soou uma zoeira congestiva e o seu coração quasi a sufocou na onda de sangue que lhe atirou á cara.

—«Sua mãe!? Está enganada, menina! Nem sequer é minha afilhada. Mandei-a criar e educar por dó, e é por dó que a tenho comigo.

Conhecendo o orgulho da filha, pagava essa afronta com afronta maior. Tambem ella se{250} sentia ferida; tambem ella tinha necessidade de revoltar-se contra a crueldade alheia. Tambem ella tinha um temperamento violento, que a extrema sensibilidade e o prematuro infortunio tinham enfraquecido mas não aniquilado.

—«Quer sahir?!—e o seu peito era sacudido por uma gargalhada nervosa, que tornava ásperas as palavras—quer sahir?! Pois sáia! Que me importa!? Recolhi-a por dó... não a obrigo a receber um beneficio que não merece.

Mas Christina, como todos os egoistas, tinha a covardia das resoluções rapidas. Diante da indignação da mãe, queria recuar, submetia-se, desejava tudo conciliar...

—«Sahir, minha senhora?! Mas para onde?