Christina, na sua cega e egoista caminhada para a vida, fôra a força invencivel da razão e da justiça, fôra a suprema e triunfante palavra do futuro.
A mãe, amoravel, generosa e submetida, dera a existencia aos pedaços para satisfazer as outras.
A filha, egoista e revoltada, e sem exageros de sentimentalidade que só provocam a dôr, recebia uma por uma transformadas em alegrias as lagrimas da mãe.
Manoela sorria: era a sua rehabilitação, era, saboreada com infinito gôsto—tão certo é que nenhum sacrificio se perde, aproveitando quasi sempre a quem menos o merece.{267}
[VIII]
Em toda a noite Manoela não pudera dormir, angustiada, sentindo sobre o peito um pêso esmagador, sufocada e aflita.
Com a manhã, que rompera radiosa empoeirando de oiro todo o campo e doirando as montanhas que se destacavam no fundo roseo do céo, serenava um pouco.
Sentia-se mais aliviada e quiz arrastar-se até á janela aonde se sentou na cadeira de braços, que era o seu poiso habitual. Olhava atenta a bandada de pombas brancas que sahia do pombal em vôos estonteados e incertos, embaraçando-se nos ramos das laranjeiras que floriam de branco e perfumavam delicadamente a atmosfera.
—«Ah, como era linda a natureza, sempre renovada e sempre a mesma,—e como era bom viver!...
E a pobre doente ouvia, num encanto de esperança, nunca extincta no coração humano, as palavras de consolação que a bôa Ama-Rita lhe ia dizendo.