—«Porque não iam passar uns tempos a casa do sr. Morgado?... Havia de fazer bem á senhora...{268}
—«Sim, iriam—concordava Manoela—mas não já, a primavera começara apenas, e a Ama-Rita bem sabia como eram ainda invernosos e frios esses mêses de primavera lá na terra.
Oh, se sabia! Quantas noites enregeladas passara acalentando nos braços a sua menina; quantos dias fechada em casa porque a neve e o frio não dava licença, até maio, de se sahir da lareira...
Manoela, sorrisonha ás recordações da bôa vélhota, prometia fazer essa viagem—em vindo o bom tempo.
—«E o menino, quando nascerá?—perguntava a Ama.
—«Já tens pressa de o chamar teu, não é assim?...
E comparava, com um certo sorriso ironico a aflorar-lhe aos labios descórados, a ansiosa espera em que se andava pela vinda do primeiro filho de Christina e os transes porque ella passara para que a mãe chegasse a este mundo, onde era agora uma triunfadora. Recordava... e recordar era tornar a sofrer as horas de desânimo e desespero que por milagre a não tinham atirado para um hospital de doidos ou para o cemiterio.
Tornava a vêr a casa em ruinas, onde a criança nascera como um animal bravio, que{269} anda a monte, para não ofender com os seus gritos de filho ilegal as consciencias socegadas...
Como isso já ia longe e como tudo tinha mudado! Quem lhe diria então que Christina, a sua filha, essa vergonha viva, essa nodoa na familia fidalga de que descendia, anos volvidos seria a senhora morgada a quem todos adivinhavam os desejos e amaciavam o caminho para que désse sem precalço o novo herdeiro da casa?!...
E tão desemelhante destino só porque uma tinha um pai que legalmente reivindicava os seus direitos, emquanto a outra era filha dum homem, que na sua inconsciencia de bruto apenas cuidara do prazer material e passageiro, com tanta mais perfidia quanto era maior o seu conhecimento da indulgencia da sociedade para com as leviandades do homem transformadas em crimes para as mulheres.