E Manoela, meditando e revendo toda a sua existencia naquella hora de passageiro repouso, que a doença lhe dera, pensava com amargurado remorso no que chamava agora a sua covardia:

—«Sim, Christina, no impulso do seu egoismo e da sua ânsia de viver, é quem estava na verdade!{270}

«A transigencia, a covardia, a fraqueza, mesmo quando são filhas do sentimento, acarretam consigo o triste premio da sua inferioridade. E assim, pela covardia a que tinham dado o bonito nome de bondade, ella ali estava sem familia, sem amigos, sem uma alegria que a prendesse á vida que a ia abandonando como fardo inutil, que já não presta para nada.

«Não, não se deve transigir, não se deve esconder uma áção que em nossa consciencia não é um crime, embora a sociedade na sua hipocrisia a mostre, ferozmente, como tal!

«A sociedade acostuma-se a respeitar os fortes e só pede contas severas aos fracos, aos que transigem, aos que a ella se não adaptam ou a não dominam, as duas unicas fórmas de a vencer.

«Christina tivera razão: ella não fôra uma bôa mãe, não soubera desempenhar o seu nobre papel, ferindo implacavel porque fôra ferida, cobrindo com a sua revolta o destino da criança que chamara a uma vida que lhe não pedira. Não tinha desculpa. Fôra necessario que a filha, no seu bom-senso de bastarda, soubesse encontrar a desforra no sacrificio do proprio corpo procurando nesse casamento sem amôr o nome que ella lhe negara.{271}

«E valia muito o amôr?... Ah, ella sorria, com dó de si mesma, recordando como se entregara toda inteira a esse sentimento, o corpo palpitante, a alma fremente, sem uma reserva, sem um pensamento mesquinho de dúvida, com a pureza duma criança, cuja alma não fôra maculada pela desconfiança—e o que lhe deram em troca?!...

«Pois bem, ia reparar a sua falta.

E, chamando a Ama, que dava uma certa ordem ao quarto, respeitando a sua meditação, Manoela pediu a escrevaninha portatil que estava sobre a mêsa de cabeceira, pegou num papel e ia a escrever...

Depois suspendeu-se, sorriu com amargura, e pôs a penna de parte. O que ia fazer com essa declaração a juntar ao testamento?!