—«Elle passa por ahi ás tardes, e ri-se para ella... Quando vai a alguma romaria sempre lhe traz uma prenda e um cravo com um verso bem calhante, mas nada mais! Ella então é uma tôla pelo rapaz! Mas quando{49} o vê faz-se encarnada como um pimentão, põe os olhos baixos, e nem sequer o salva.

—«Ora essa! Tem sua graça, tem!

—«Eu nem posso explicar isto. Que a minha Tereza—não é por sêr minha sobrinha—não é de engeitar... é a melhor cachopa cá da terra.

—«Ora isso, nem se fala! Compara-se lá! Basta saber lêr e têr a inducação que teve. É a flôrsinha da nossa vila.

—«Pois isto dá-me cuidado, dá! E não é pouco... A pequena só me tem a mim no mundo, e eu estou velha e cansada; queria-a vêr arrumada antes de fechar os olhos. E com o Manél da Clara do Rezadeira gostava, lá isso gostava: a mãe é rapariga do nosso tempo, e elle tem alguma coisa de seu, e no fundo não é mau rapaz. Mas então!... Parece bruxaria.

—«Ai senhora Zéfa, não pônha mais na carta. Isso hade sêr, hade! E não é mais nada senão coisas daquella atrevida da Maria do Próspero! Aquilo sempre fôram de má raça. Até o pai... hade saber! Não?! Pois eu lho conto. Crédo, santo nome de Jesus! Cada vez que me lembra até os cabelos se me põem em pé. O que aquelle malvado disse de mim, que sempre entrei em casa da fidalga, que Deus tem, com toda a franqueza!...

—«O que foi então?{50}

—«Ai não sabe?! Aquele grande diacho, Deus me perdôe! Então não disse elle que eu é que chupara o morgadinho, o filho da senhora fidalga!? Aquella aventesma!... Nem que eu não soubesse!... Bom, calo-me, que é melhor...

E mudando de tom, muito confidencial e amigavel:

—«Posso dizer-lhe de certeza: a Maria do Próspero conversa com o Manél e parece que o traz enfeitiçado. Olhe que lhe ouvi eu dizer—que primeiro estava ella, que já o namorava ha muitos anos, ainda antes de elle ir para a tropa, e que nunca a lesma da Terezinha o havia de apanhar! Desculpe, senhora Zéfa, aquilo é uma atrevida, uma doida!... Pois de que raça ella é!...