—«E o que é certo é que vai levando ávante o seu intento; tem artes do demonio!...
—«Deixe estar, deixe estar... Eu sei cá umas coisinhas que hãode voltar o Manél, oh se hãode!... Assim eu tivesse uma coisa que lhe pertencesse... Coisa de vestir era melhor... Punha-lhe a pedra de ara e dizia a oração... É coisa certa.
—«A Terezinha tem um lenço que elle lhe deu, mas fosse lá falar-lhe nisso!... Toda se zangava, não acredita nestas coisas...
—«Pois são bem verdadeiras...{51}
—«O outro dia ensinei-lhe que cruzasse as pernas mesmo de pé quando a atrevida da Maria passar por ella... Desatou a rir!
—«Ah, isso é uma coisa certa para livrar do mau olhado de quem nos quer mal. Sabe o que era muito bom? Era fazer á pequena um defumadoiro com hervas colhidas na manhã de S. João... É o alecrim, o funcho, a dedaleira, o rosmaninho, o sabugueiro... Se quizer, eu tenho lá.
—«Muito obrigada. Assim ella quizesse!... Bem se fazia um defumadoiro que a livrasse daquelle enguiço.
Assim continuaram em conversa larga, cheia de combinações e reticencias, que muito as interessava, emquanto a Terezinha dentro de casa trabalhava na teia branca, que parecia sempre a mesma, eterna como as suas máguas.
O tear monotonamente fazia subir e descer os pentes com um barulho sêco e igual, emquanto ella levantava a sua vózinha agradavel de soprano numa toada melancolica:
—«Eu heide amar uma pedra,
Deixar o teu coração;
Uma pedra não me deixa,
Deixas-me tu sem razão».