E ao dizer a quadra, que parecia sahir-lhe do proprio coração, os olhos enturvecidos de{52} lagrimas fitavam a estampa ingenua que elle lhe trouxera da Senhora do Castelo, a grande romaria de setembro.
Todos os anos lá ia—era o costume—e tambem a Maria do Próspero, que punha nos ranchos um contínuo esfusiar de gargalhadas terçando galhardamente com os mais afamados piadistas as armas perigosas da chalaça e da resposta á letra.
Cantavam ao desafio, ella e o Manoel. Tinham fama por todas aquellas redondezas, e, mal as suas vozes se trocavam num principio de duelo, os auditores cercavam-nos e apertavam-nos num círculo de admiração excitando-os com risos e ápartes.
Tambem era o par certo em todas as romarias—talhados um para o outro!
A Maria era alta e desempenada! A sua tez, dum moreno intenso, fôra brunida pelas soalheiras ardentes e curtida pelas ventanias agrestes. A bôca, sempre aberta em riso, era vermelha e fresca como cerejas maduras, e os dentes brancos e agudos cravavam-se com delicia no pão de milho, sua unica escôva.
As saias, rodadas em balão, faziam-lhe mais altas as ancas já de si redondas e fortes; o cabelo, em duas tranças pregadas, enchia-lhe a cabeça como uma touca de veludo negro.{53}
Quando punha o cáchené vermelho e amarelo de grandes ramagens verdes, o chale em bico traçado deixando livre o braço esquerdo, a chinela branca pespontada na ponta do pé, nenhuma como a Maria do Próspero para arrebanhar admiradores.
Depois, sempre satisfeita, radiava em plena expansão dos seus vinte anos sadios, vividos em plena natureza.
Nas ceifas, ao ardôr dos sóes caniculares, mangas arregaçadas mostrando os braços trigueiros e musculosos; ou no gesto mecânico de juntar as paveias e sobraçar os mólhos, tinha a harmonia escultural e grave duma Céres fecunda.
Nas vindimas, era a primeira dos ranchos, vermelha do môsto que corre como sangue generoso, a bôca escancarada em risos e cantigas... Tinha um aspecto quasi tragico e uma beleza perturbante e assustadora de bacante.