O Manoel, que tinha ficado um pouco para tarde, conversando com uns amigos na taberna do Geitoso, vinha assobiando alegremente, caminhando despreocupado e sem grande pressa.

Ao passar pela Fonte do Inferno... diabo!... que ouviu elle?! Um rumôr confuso de gargalhadas, que aflavam no ar como grasnar longinquo de corvos...

Mêdo?.... Elle não tinha mêdo, mas desde que acontecera aquella historia da casa dos Carneiros... Crédo! Abrenuncio!

—E não se benzeu, o Manoel, como lhe cumpria fazer, ao lembrar-se de coisas daquellas!... A tropa é que estraga os rapazes, está visto...{58}

Agora, as gargalhadas já soavam mais perto... diria mesmo que ouvia a Maria do Próspero.

—Mas naquelle sitio, áquella hora!... Quem se atreveria?!...

—Em casa dos Carneiros,—lembrava-se involuntariamente—aquelle barulho de cadeias a arrastar, os ferros em braza que vinham cahir aos pés da gente da familia, o vozear sinistro que se escutava em toda a aldeia e trazia apavorados os mais valentes... Deus do céo, que terror fôra na terra toda! Já ninguem dormia nem descansava. Muitas mulheres tiveram então espiritos que os padres e os bentos esconjuravam, e se batiam com elles como forças iguais.

—Só depois que o senhor Vigario velho se resolveu a sahir, de capa de asperges, para benzer a casa endemoninhada, é que tudo socegou...

O Manoel já não assobiava, e ia olhando de soslaio para o Camborço, pedraria escalvada suspensa por milagre sobre o abismo e que a toda a hora parece desabar e soterrar as pobres casas de pedra solta tisnadas pelo tempo.

Um ventito picado e quente levantou-se então, trazendo o rumôr distinto de vozes, gritos surdos e gargalhadas abafadas...{59}