O Manoel era destemido; apesar da má fama do sitio, tido como logar de maleficas reuniões diabolicas, resolveu-se a transpôr o pequeno muro que separava o caminho da Fonte do Inferno, a propriedade de mais estimação dos velhos fidalgos.
Primeiro, não viu nada; depois, vaga e confusamente, luzinhas que saltavam e atravessavam-se corriam e perseguiam-se, juntavam-se e tornavam a afastar-se...
Um calafrio lhe percorreu o corpo e sentiu na espinha dorsal uma sensação desagradavel que o fez tremer. O Manoel era valente,—nisso não podia haver dúvida!—mas é que aquilo que via tão realmente como se á luz do sol olhasse as suas proprias mãos eram as feiticeiras, tal qual a sua mãe as tinha visto tambem quando em pequenino esteve ameaçado de sêr chupado por ellas...
Entre curioso e medroso—já agora não sahiria dali sem vêr o que aquilo era.
Acercou-se da eira onde a ronda sinistra era mais febril...—Jesus, que coisa horrivel!—Olharapos corriam vertiginosamente, que mais pareciam voar, na noite negra, com o seu unico olho flamejante no meio da testa, lanterna magica das profundezas do averno!...
Um lobis-homem passou a galope, no seu fado triste, procurando alma christã á qual{60} podesse, antes da meia-noite, entregar a sua cruz martirisante. Se elle o tivesse topado!... Até os cabelos se lhe punham de pé.
As luzinhas continuavam correndo alígeras, voando na escuridão dura da noite.
Surrateiramente foi-se aproximando da eira onde chamejavam em halucinado rodopio... A pouco e pouco ia-as distinguindo na sua fórma humana, girando buliçosas e gárrulas.
No meio da roda—cruzes! como podia aquilo sêr?!...—o Diabo passeando altivo, vestido de encarnado e de chapéo guisalhante, poisando os pés de forquilha sobre as cabeças das feiticeiras, que riam sarcasticamente.
Dessa vez o Manoel não poude deixar de rir, tão patusca lhe pareceu a cêna.