Mas o mestre barbeiro afiançou a cura para breve, dando uma picadélasita no braço do rapaz—que era de humôr muito quente, e apanhara algum golpe de sol lá pela feira.

A febre sobreveiu e teve-o entre a vida e a morte, dias e noites ardendo num fogo de que o delirio e a agitação eram o corolario logico. O que elle via, os sonhos e os pesadelos que lhe enchiam a pobre cabeça enfebrecida, mal o compreendiam os seus enfermeiros. E todo aquelle mal se agravava e a agitação chegava ao delirio furioso dum louco se por acaso a Maria do Próspero chegava á porta, a pedir noticias ou a querer ajudar a tia Clara nos arranjos domesticos.

Ninguem podia compreender tal horror á rapariga, nem ella, que se consumia e chorava{68} sem consolação por vêr a mudança brusca do seu Manoel.

Quando se levantou estava pálido, cambaleava, e uma tristeza profundissima lhe encovava os olhos.

No primeiro dia em que sahiu, o seu cuidado foi logo ir procurar a Gertrudes Zarôlha, que encontrou sentada á porta da casa, fiando e conversando com o gato preto gordo e pesado, seu unico companheiro e amigo.

O Manoel não esteve com ceremonias, foi direito ao fim. Contou á velha tudo quanto tinha visto na Fonte do Inferno quando viera tarde da feira, e exigiu explicações completas sob a ameaça duma sóva se ella não quizesse dizer a verdade.

Ao principio a Gertrudes indignou-se, pôs as mãos no peito, jurou a sua inocencia e negou que fosse feiticeira.

—Na Fonte do inferno?!

—O Manoel que não sonhasse em tal—crédo! cruzes, canhoto! Fôra aquelle patife do Próspero que levantara aquella calúnia e dizia a quem o queria ouvir—que fôra ella quem chupara o filho da fidalga...

Mas o Manoel atalhou:—não negassse a Senhora Gertrudes; tinha-a elle visto, ora essa! Querer dizer-lhe que não era verdade uma coisa que elle mesmo vira, com aquelles{69} mesmos olhos que a terra havia de comer?!... Demais, não tinha nada com a sua vida nem o contaria a ninguem, pois até lhe estava muito agradecido por o têr ensinado a livrar-se de tamanho perigo. Agora o que queria saber era a verdade—sobre a Maria do Próspero. Seria ou não certo tê-la visto abraçar o Senhor?... Seria ou não certo o sêr ella feiticeira a valer?! Podia têr-se enganado... podia-a têr confundido com outra... Ás vezes, e como foi ao longe...