Era a última esperança, e a ella se agarrava com todo o afinco de quem não quer perder uma dôce ilusão.

E pensava, horrorisado, que aquilo poderia sêr verdade e teria que deixar de pensar na Maria, agora que a paixão por ella chegara ao halucinamento, hesitante entre o amôr e o odio.

Quanto daria para que a Gertrudes lhe désse a certeza de que os seus olhos o tinham iludido, quanto daria!... Tornar a têr na Maria a confiança que tinha dantes; podê-la levar para a sua casa, como ainda na vespera lhe dissera a mãe, que morria pela rapariga—tão trabalhadeira, tão desembaraçada e bôa... Não tinha nada, mas isso o que importava? Ella, a Clara do Rezadeira, não se importava nada com isso e aconselhava-lhe a que escolhesse{70} antes uma rapariga de trabalho do que uma com dinheiro, que nada vale quando dá em mãos que o não sabem guardar nem aumentar.

Como elle esquecia, evocando a formosa rapariga, a pálida Terezinha, que lentamente se ia definhando e morrendo aos poucos, ao compasso surdo e monotono do seu tear!...

Mas a Gertrudes foi impiedosa. A pouco e pouco começou a dizer tudo; primeiro timidamente, tenteando o assunto, depois entusiasmando-se, contando detalhes, dizendo coisas que arrepiavam e indignavam o Manoel.

Era certo e mais que certo sêr a Maria feiticeira! Havia pouco tempo que aprendera, mas já a consideravam das mais finas e das mais queridas do Senhor.

—O lobis-homem que tinha visto—mas isso em grande segredo, porque tinha medo de levar alguma sóva—era o Próspero velho. Andava com o fado ha tantos anos! Não tinha sorte nenhuma, coitado!

Que de historias lhe contou, e elle ouviu pasmado, vencido por aquella verdade irrefutavel:—a Maria era feiticeira!

A Gertrudes comentava com gestos curtos e vozes de confidencia:—Ora essa! De que se admirava? Sempre lhe dissera que não era mulher capaz para um homem de brio e de honra.{71}

Tinha-lhe odio, o odio implacavel das velhas criaturas despresiveis aos que têm a insolencia da alegria, da juventude e da beleza. E então, depois que a rapariga dissera numa sacha, entre as gargalhadas do rancho, que não queria estar ao pé della porque lhe podia dar quebranto ou chupá-la como fizera ao filho da fidalga, a Gertrudes não a podia tragar.