—Se fosse com a Terezinha,—continuava convencedora—com essa era de sua aprovação. Uma rapariguinha tão recolhida, sem uma nota, sem más palavras para ninguem, e sempre tão bôa, tão condoïda! Mesmo um anjo do céo!

O Manoel calava-se, abismado no seu desgosto, não podendo seguir-lhe a tagarelice nem dizer uma palavra que lha fizesse estancar. De quando em quando, uma palavra ou outra feria-lhe o ouvido, chamando-o á realidade, aos repelões, sobresaltando-lhe ainda mais a alma amarfanhada.

Por vezes já a imagem da Terezinha, com a sua esbelteza delicada, o seu vestido escuro de luto aliviado, o sorriso maguado da sua bôca virgem de beijos, se começava a esboçar na sua memoria. Via-a córada como a romã quando acertava de lhe dirigir a palavra, sofredora e resignada quando o sabia mais prêso pelos encantos de Maria; lembrava-a{72} fugindo arisca da porta para o espreitar da janela, mal assomava ao cimo da rua com os seus ares triunfantes, bamboleando-se com a importancia de janota de aldeia.—«Coitadinha! Gostava tanto delle! Emquanto esteve doente, nunca ella deixou apagar a lampada á Senhora do Castelo...

O Manoel afastou-se por fim—a velha já o enjoava com as suas historias. E, ao sahir dali, pensava com funda melancolia em todo o passado extinto, nessa alegria radiosa que não voltaria mais. Da sua vida, tão profundamente abalada, nem a si mesmo sabia dar conta.

Quando subia vagaroso e preocupado a rua estreita e ingreme, os seus olhos poseram-se com sobresalto na Maria do Próspero, que caminhava em sentido contrario, cabisbaixa, os braços cahidos ao longo do corpo, os olhos pisados postos no chão, o fato em desalinho de quem perdeu o gosto e a garridice.

Que mudada estava! Nem parecia a mesma,—não a reconheceria por certo fóra dali.

O rapaz, olhando-a, sentiu subir-lhe do largo peito um soluço doloroso.

Meteu-se na sombra duma porta e deixou-a passar, avergada ao pêso da tristeza e do remorso do seu pecado sinistro.{73}

Estremecia de horror como se a visse ainda na noite demoníaca, cuja lembrança o perseguia como uma ideia fixa de monomaníaco.

Como podia ser feiticeira uma rapariga tão linda, tão alegre, tão sincera?!...