Um brilho ardente de febre queima sempre os seus lindos olhos negros, que vagueiam inquietos, num mêdo doentio e tragico.
Atormentada de visões, mordida de maus olhados, mêses inteiros prêsa de delirios histericos, sente-se, na verdade, transportada nas azas do vento para sitios ermos em que luzinhas saltitam em rondas buliçosas, lobis-homens passam em cavalgadas doidas para se irem espójar nas encruzilhadas sinistras, moiras encantadas tecem em teares de oiro contando as saudades antigas da sua vida humana, e olharapos, duendes, lémures e trasgos povôam as noites horrificas de sabbat.{78}
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[III
Diario duma criança]
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[DIARIO DUMA CRIANÇA]
Creio que não é bem exáto o titulo que escrevi no alto da página. Isto não é verdadeiramente o Diario duma criança, não é, mas sim a minha vida toda recordada dia por dia, hora por hora, com uma precisão de factos e sensações de que o Chico muito se admira.
Decerto não sou muito velha—fiz em março vinte e dois anos—mas, assim mesmo, elle acha extraordinario como os episodios da minha infancia se me fixaram na memoria tão vivamente, e os posso recordar com tanta nitidez, como se a minha alma tivesse a receptibilidade mecânica de um fonógrafo.
Não pensei nunca em escrever; sei, tão pouco, que nenhuma novidade pode trazer ao mundo a minha prosa descuidada e frouxa.{82}
Fui sempre pouco estudiosa e nenhuma honra dei aos meus professores. O Chico, que é um sábio, é que me disse, uma tarde, resumindo toda uma longa palestra em que eu lhe contei os mil incidentes de vida estranha em que o meu pobre espirito se debateu até chegar á dôce paz da nossa felicidade de hôje:
—«Se tu escrevesses isso tal qual o contas, fariamos um belo estudo de psicologia infantil!...