Chamo-me Raquel. Creio que este nome é hereditario na minha familia, porque a minha{84} avó e a mãe da minha avó eram tambem Raquel. Não sei. De genealogias, como de tudo mais, entendo pouco.

O mais longe que posso recordar na minha existencia humana, vejo-me feliz.

Era uma grande casa de aldeia, a nossa. Havia ali de tudo quanto pode desejar uma criança acostumada á simplicidade da vida campestre.

Os pateos eram habitados por uma multidão de animais domesticos, que nos conheciam bem, de tanto milho que ás escondidas lhes deitavamos.

Eu era a mais velha, e os meus quatro irmãositos seguiam-me alegremente pelos campos fóra, como um rebanho segue o pastor. Nada nos era defêso, nem parede que não tivessemos escalado, nem arvore que não conhecessemos como os nossos dedos. Os frutos eram vigiados desde que as arvores se cobriam de prometedoras flôres, e antes, muito antes da familia os vêr em casa, já nós tinhamos feito a nossa primeira escôlha. Quando a nossa pobre burrica descansava do fatigante trabalho da nóra, iamos desamarrá-la da manjedoura, saltavamos-lhe para cima, e fazíamo-la trotar pelos caminhos pedregosos da aldeia como um pur-sang trotaria nas avenidas areadas dum luxuoso parque.{85}

Felizes tempos!... Mas, no fim de contas, eu era uma rapariga; ás vezes lembrava-me disso, e nem sempre estava disposta a fazer de general no exercito fraternal.

Muitas vezes mesmo, o instinto do meu sexo pedia-me brincadeiras mais socegadas: queria governar casa, sêr a mãe, exercer a minha atividade de mulher trabalhadeira e que conhece o seu logar. Chamava então as pequenas da minha idade e brincavamos ás dônas de casa: improvisando os nossos lares em qualquer recanto do jardim, servindo de baixela fragmentos de loiça, cosinhando pétalas de flôres e hervas que tinhamos mais á mão; indo ao tanque lavar a roupa das bonecas, as nossas filhas; carregando a agua com a cantarinha em equilibrio sobre a rodilha, no alto da cabeça; tendo as nossas disputas e conversas como viamos ás senhoras visinhas, lá no povo. Ralhavamos com os homens, os meus irmãositos—porque entravam tarde, andavam por lá com os amigos...

Na aldeia não havia meninas finas, e então arranjara as minhas amigas e companheiras nas humildes filhas dos nossos caseiros e serviçais.

Tinha os seus modos desempenados, os seus gostos simples, e, apesar disso, não me parecia com ellas!{86}

Sempre me hade lembrar o que escandalisava meus pais quando afirmava perentoriamente: que de todas as casas da vila proxima, onde as havia muito bôas, era a mais humilde de todas a que mais me agradava.