Os meus irmãositos todos se afligiam quando se ventilava a magna questão, que os ameaçava da minha ausencia, e eu, sem bem saber o que preferia, ia gosando alegremente os dias na bela paz da minha aldeia florída e ensoalhada.

Mal suspeitava que a desgraça estava a bater-me á porta—e mais terrivel do que podia imaginar! Parece-me estar a vêr entrar na cosinha de grande chaminé, onde se enxugava o enchido e as castanhas secavam no caniço, a mulher dos recados que fôra á vila buscar o correio, e me dizia, alviçareira:

—«Olhe, menina, aqui vem uma carta para a mamã. É do seu tio Manoel; já lhe conheço a letra.

Muito alegre, arrebatei-lha das mãos e fui-me pela casa fóra a gritar pela mamã até dar com ella no celeiro a receber uma pensão. Lembro-me bem—cincoenta e sete!—gritava o caseiro, e a mamã, muito serena, ia apanhando um grão de milho por cada alqueire que o homem despejava na tulha. Quando entramos—eu e os meus quatro irmãositos—como se fôssemos uma revoada de pardais bulhentos, ella toda se agastou...—Como isto me ficou nitido na memoria!—Quando viu de quem era e o que dizia a carta, correu toda satisfeita em busca do marido, emquanto{97} nós aproveitavamos a falta de vigilancia para saltarmos todos para dentro do milho. Eu, que era a maior, enterrava-me até á cinta nos grãos amornados e enchia os bolsos do meu bibe branco, para levar uma lembrança ao pombal. Um dos pequenos gritava que as suas botas, de canos muito largos por têrem pertencido ao mais velho, levariam mais dum saco de milho, para a ração suplementar da Cacilda.

Riamos perdidamente, atirando uns aos outros aquella chuva de grãos muito sêcos, ainda cheirando a campo e ao sol das eiras onde se aloirara e brunira!

O caseiro achava muita graça aos meninos—podéra não!—e na sua cabeça lanzuda esboçava-se, talvez, o pensamento finório de se enganar na conta com alguns alqueires a menos. É provavel que assim sucedesse, porque a carta do tio Manoel tinha transtornado por tal fórma a mamã, que até se riu quando nos veiu encontrar a todos aninhados dentro do milho, e não passou revista ás nossas algibeiras quando saltamos para fóra e nos safamos com presteza—não fôsse ainda cerceada a merenda que levavamos aos nossos protegidos da capoeira, do pombal e da estrebaria!

Já fóra e ainda ouviamos a contagem dos alqueires que entravam para a tulha, arrastada{98} e monotona. Os bois, jungidos ao pesado e primitivo carro de duas rodas, estacionavam no quintal, ainda carregados com os sacos cheios com o resto da pensão, guardados por uma criancita vestida de jaqueta, calças compridas e grande chapéo, como um pequeno homem de caricatura. O que nós rimos! Era o filho do caseiro, o Tonito, mais novo do que o mais novinho dos meus irmãos, mas já util como uma pessôa crescida.

São assim os filhos do nosso povo, duma sujeição ao trabalho que os predispõe para uma longa existencia paciente, sofredora e productiva.

Como esse foi o último dia feliz da minha infancia, não me esqueceram nenhuns destes detalhes, nem o cheiro á poeira do milho e aos queijos da Serra da Estrella, que secavam em tábuas prêsas ao této do celeiro por cordas isoladas com têstos de barro, por causa dos ratos, providencias caseiras da minha mãe.

Desde essa luminosa tarde de outôno, ainda quente como se o sol cahisse a prumo, num estiramento inesperado de estio, e já perfumada pelos frutos maduros, que se recolhiam á pressa, e pelo môsto de cheiro forte que ferve nas dornas ainda antes de recolher ao lagar, a nossa casa transformou-se completamente. Eram só conferencias sobre o{99} que se daria aos manos, e mais os lençois bordados, a coberta de damasco para a cama, as toalhas de linho com ricas franjas de renda de Peniche... Tudo quanto havia de melhor se levava para o quarto da laranjeira, o mais vasto e cómodo da casa, o proprio quarto de meus pais, que tudo achavam pouco para receber condignamente o mano Manoel, que voltara havia pouco tempo do ultramar, casado com uma estrangeira. E assim passaram oito dias em que se não pensou nem falou noutra coisa.