A minha mãe fazia esforços de memoria por se recordar bem nitidamente dos traços fisionomicos do irmão, como se volvidos tantos anos gastos em trabalhos e fadigas, elle podesse têr ainda o rosto levemente rosado, o buço mal lhe sombreando o labio superior, a cabeleira negra ondeada que lhe davam um tão gentil aspéto no retrato em daguerreotipo, tirado quando assentara praça em cadete, e que nós não nos cansavamos de ir vêr á sala de visitas, no seu estojo forrado de veludo granada.

Até o Padre José afroixava a sua vigilancia pelo nosso estudo e punha-se ao dispôr da mamã—para o que fôsse necessario. A minha mãe sorria benevola e agradecia, mas não o ocupava em coisa alguma, porque elle, muito forte no português e no latim e mesmo um{100} tanto no francês, tirado disso só á mêsa, diante duma travessa cheia de açorda, ou no pomar podando e cuidando das suas queridas arvores, era homem de alguma utilidade.

Um santo, o nosso bom professor! Que saudades delle eu tive depois, quando comparava a sua maneira tão lhana de ensinar, a sua ingenuidade de bom, respondendo meio comprometido ás nossas curiosidades extemporaneas, e quando se atrapalhava á nossa pergunta atrevida:

—«Ó padre Zé, para que está sempre a falar no diabo?

Era o costume delle, o seu bordão.

—«É verdade—respondia-nos muito ingenuo—é um diabo duma mania que eu tenho de estar sempre a falar no diabo!...

Um bom homem, afinal de contas; um santo velho, nada fanatico, de bolsa franca para todas as miserias, palavras de consolação para todas as lagrimas, espirito bem equilibrado e muito logico, um filósofo sob a aparencia dum sólido camponez. Conseguira que eu aprendesse da minha lingua aquilo que ainda hôje sei; conseguiria—era capaz!—ensinar-me talvez o latim e até a ajudar-lhe á missa. O que não faria desta sua rebelde discipula a paciencia beneditina do bom Padre José!{101}

O tio Manoel era irmão mais velho da minha mãe. Sahira de casa muito novo; a última vez que empreendera a incómoda viagem á aldeia, era apenas cadete, como tirara o retrato. Depois fôra para a Africa, na ânsia de ganhar honras e postos. De lá percorrera quasi todas as possessões ultramarinas, sem mais se lembrar de escrever á familia. Só havia pouco tempo mandara noticias participando têr casado, e dizendo a sua resolução de voltar em breve ao reino.

Alguns mêses mais tarde, nova carta dava conta da sua chegada a Lisbôa, onde estava tratando de se instalar, e convidava a irmã e cunhado para irem fazer-lhes uma visita. Na última carta, aquella que tanta impressão causara em todos nós, dizia:—que, em vista da dificuldade que os meus pais opunham em deixar a casa, viria elle visitá-los e apresentar a sua senhora.

No dia em que deviam chegar, logo de manhã nos envergaram os fatos domingueiros, recomendando-nos muita cautela—não fôssem os tios julgar-nos uns besuntões!