Lisbôa não me deslumbrou, porque mais, muito mais, fantasiara dos seus encantos e fausto no meu sonhar de criança. As ruas da Baixa, com as suas altas casarias alinhadas e uniformes, que a rigidez pombalina decretou, faziam-me uma terrivel saudade dos campos largos por onde a vista passeia e cabriola como cabritinho montez. Apertava-se-me o coração recordando os horizontes que se esbatem ao longe, nas serranias violetas; e o marulhar da multidão irritava-me os nervos, mal me podendo recordar o rumorejar embalante dos pinheirais atravessados{116} pelos ventos em livres carreiras de tardes outonais...

O meu pobre tio mostrava-me coisas, queria que me extasiasse com a capital, eu pobre serrana que nunca vira nada, mas a faculdade admirativa tinha-se embotado em mim. Era um corpo sem alma—que essa por lá me ficara, errando pelos campos da minha risonha terreola.

Só quando o mar se descobriu diante dos meus olhos, elles se abriram numa atenção de velha simpatia. Não, nunca tinha visto o mar, mas sonhava-o e amava-o desde muito, com o aféto entranhado e atavico que todos nós lhe temos. O mar, a nossa estrada movediça e terrivel!... O mar, essa nossa segunda patria, foi a unica coisa onde descansei a vista com enlevo e que durante os quatro anos de cativeiro me deu algum prazer á vista. Quando, entre duas ruas, o descobria lá ao fundo, numa nesga rutilante de sol, toda a minha alma se refrescava e florejava de sorrisos.

Felizmente que a casa do tio era num bairro afastado e novo, onde raro chegavam os pregões berrados das ruas e só de longe em longe o rodar duma carroagem fazia estremecer os vidros das janelas. E, por fortuna, tinha atraz um jardinsito, entalado entre casas é{117} verdade, mas emfim mimoseando-nos com um pouco de ar mais puro para os robustos pulmões desenvolvidos pelo ar forte da montanha.

A cubana tinha fórmas dogmaticas sobre a educação, que serviam para os cinco anos da filha e para os meus doze de rapariga nubil.

Era preciso que me levantasse cedo—vá! Isso não me custava, acostumada desde criança ás madrugadas na aldeia. Mas, depois de me levantar, não podia correr pela quinta, abrindo o apetite ao almoço suculento que me esperava na mêsa; tinha que fazer a cama, arrumar o quarto, e estudar.

Em casa, para ajudar a Maria Augusta, muitas vezes lhe tirava a vassoira das suas pobres mãos encarquilhadas, e varria, cantando festiva, auxiliando-a no fazer das camas e mais arranjos domesticos; ali, obrigada, mandada por aquella monstruosa criatura, sentia um tal desespero, um tal rancôr a referver-me na alma, que todas as minhas ideias eram negras como fuligem, todos os meus sentimentos eram maus a roçarem pela perversidade.

Encostada aos vidros da janela do meu quarto, olhava a gente que seguia o seu{118} caminho, apressada ou vagarosa, alegre ou triste, pobre ou rica,—e a todos eu invejava com verdes invejas de reptil!...

Era preciso que estudasse três horas antes do almoço, e o meu espirito vagabundeava pelos caminhos pedregosos da minha terra, debruçava-se na ribeira onde os salgueiros reflétiam a folhagem leve e as margaridas rosadas, as pervincas azuis e os miosotis da côr do céo espreitam entre a verdura da herva tenra.... Era preciso que inclinasse sobre os livros a minha pobre cabeça pesada de sôno, e os meus olhos fechados reviam os milharais regados de fresco, as cerejas vermelhas suspensas como pingos de lacre das arvores amigas, as amendoeiras em flôr, as encostas cobertas de olivedos pálidos, os pinheiros esguios, os castanheiros arreganhando a bôca dos seus ouriços para nos darem o fruto saboroso. O meu espirito não acompanhava o pobre corpo oprimido, que se estiolava num quarto fechado, diante de estereis livros que não compreendia; não! Elle assistia, lá ao longe, á ininterrupta festa da natureza; alegrava-se com os divertimentos do campo; procurava os magustos, onde se comem as castanhas assadas na fogueira; ia aos serões, onde as velhas avós contam lindas historias ás raparigas, fiando á mortiça luz da candeia{119} suspensa do velador de pau enegrecido pelos anos; evocava as ranchadas que vão ás romarias, cantando e tocando a viola e os ferrinhos, e os que vão para as feiras álacres, entre festivos e afadigados, na policromia do trajar das mulheres e na gravidade interesseira do comerciante que oferece ou compra a mercadoria e discute largamente o seu negocio...

A fuga era o unico deleitoso pensamento que se esboçava no meu cerebro. Fugir! Sêr livre! Não têr mais diante dos meus olhos a figura estupenda da mulher de meu tio, nem a face simiesca da petiza!... Era o ideal supremo que acariciava, um sonho redentor que se me fixava na cabeça por mil pontos delicados e impercétiveis. Formava com esta unica e obsessiva ideia projétos sem conto, e se não fôsse a covardia ante o escandalo, que é ainda uma servidão do nosso espirito, se não fôsse o receio atroz de sêr apanhada pela policia, vir o meu caso por miudos nos jornais, e sêr finalmente trazida de novo alí, certamente teria feito alguma!... Faltava-me a energia determinante dos fortes caratéres. A revolta traduzia-se pelo embrutecimento, pela apatia, pela oposição passiva dos fracos e dos ignorantes.{120}