Fechada no quarto todas as manhãs, em vez de estudar deitava-me sobre a cama, e afiguravam-se-me as tábuas alinhadas e estreitas do této como se fôssem as tábuas do meu caixão.

Lá fóra era a vida: os pregões que atravessavam a rua solitaria numa festa ruidosa de côres, revoadas de andorinhas riscando o azul em zig-zagues caprichosos, a chilreada estúrdia dos pardais pelos telhados...

Morria de aborrecimento, e morrer, creio, foi o pensamento mais consolador que nesse tempo se alojou no meu cerebro.

Não estudava, o que era em mim um velho habito, mas com as lições do Padre Zé tinha chegado a compreender alguma coisa, e agora sentia-me sem nenhuma inteligencia, sonolenta, parada, sem sombra de vivacidade intelectual.

Tinha uns poucos de professores, pagos pelos meus pais é claro. E por sinal que eram bem generosos com o dinheiro dos outros...

O inglês ensinava-mo ella, mas eu odiava-a tanto e o meu espirito começava a achar um tal prazer em contrariar os outros, que me sublevava contra mim mesma quando começava a compreender essa lingua que ella tinha como sua.{121}

Farta já de a saber, obrigava-a a algaraviar o português para me rir intimamente dos seus comicos disparates.

Estava assim.

Pouco sahi durante os quatro anos que durou o meu cativeiro—porque a sua companhia me desagradava cordialmente, porque os passeios por ella escolhidos eram odiosamente disparatados, e porque a sua imposição de me ensacar em verdadeiros horrores, que ella alcunhava de vestidos á inglêsa, me causava um asco invencivel.

Sem têr nunca apreciado os laçarotes e as rendas esbanjadas nos vestidos provincianos das minhas antigas conhecidas, sem ambicionar a elegancia casquilha das meninas lisboêtas, o meu espirito era demasiadamente meridional, demasiado artista, para se não prender com a fórma e não se encantar pela côr e pela beleza do trajo, como de tudo quanto me pertencia e rodeava.